Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"


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Um esperar em movimento

Robson Cavalcanti

Referência bíblica

Mt 25 14-30

“O Reinado de Deus acontecerá como um homem que ia viajar para o estrangeiro. Chamando seus empregados, entregou seus bens a eles. A um deu cinco talentos, a outro, dois, e um ao terceiro: a cada qual de acordo com a própria capacidade. Em seguida, viajou para o estrangeiro. O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que havia recebido dois lucrou outros dois. Mas, aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão. Depois de muito tempo, o patrão voltou, e foi ajustar contas com os empregados. O empregado que havia recebido cinco talentos, entregou-lhe mais cinco, dizendo: “Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei’. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria’. Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: “Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria’. Por fim, chegou  aquele que havia recebido um talento, e disse: “Senhor, eu sei que tu és um homem severo pois colhes onde não plantaste, e recolhes onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo, e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’. O patrão lhe respondeu: «Empregado mau e preguiçoso! Você sabia que eu colho onde não plantei, e que recolho onde não semeei. Então você devia ter depositado meu dinheiro no banco, para que, na volta, eu recebesse com juros o que me pertence’. Em seguida o patrão ordenou: “Tirem dele o talento, e dêem ao que tem dez.  Porque, a todo aquele que tem, será dado mais, e terá em abundância. Mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a esse empregado inútil, joguem-no lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes”.

Introdução

Espera subentende ficar parado. Mas esperar a vinda de Jesus, o Reino de Deus ou o Julgamento final deve ser diferente para o Cristão, o Cristão é aquele que se coloca a caminho, peregrino sempre, rumo ao encontro com Jesus Cristo face a face.

Esta passagem bíblica do final do evangelho de Mateus está em forma de parábola. Anuncia o julgamento final, a volta de Jesus Cristo, o fim do mundo e o Reinado de Deus. Faz parte de um conjunto de três estórias. Domingo passado sobre as moças e o noivo, hoje sobre os talentos e domingo próximo sobre o julgamento final.

O que Deus espera de nós?

O Patrão viajante sem dia e hora para voltar

No começo dessa passagem, temos o patrão que viaja para o estrangeiro. Ele confia seus bens a três empregados de acordo com a suas capacidades. Note que o patrão sabe a capacidade de administração de cada um.

Assim como o patrão, Jesus Cristo entregou a nós, discípulos, seus bens: A construção do Reino de Deus, a Vida, a Natureza, o Mundo e tudo que há nele. Confiou a missão de anunciar até os confins da terra e principalmente de amar. Ele nunca dá uma cruz que não podemos carregar, um fardo mais pesado do que podemos suportar, ele conhece nossas capacidades.

Servos bons e fiéis

Dois servos trabalharam seus dons, multiplicou-os. Isso supõe o esforço humano e pessoal de transformar a obra confiada. Os dons se multiplicam na medida que o trabalhamos. E Deus sabe e você sabe ai no seu coração, o que você tem capacidade de exercer por Jesus Cristo. Por exemplo, na Igreja. Tenho certeza que muitos de nós temos total capacidade de realizar diversas coisas que possam ser feitas na Igreja. Deus nos deu esta capacidade. Mas é preciso trabalhá-las. Existem exercícios físicos, muitos o fazem, desde os jovens aos da melhor idade. Mas quantos de nós exercitamos o Espírito. Sim existem exercícios espirituais também.

Servo mau e preguiçoso

Houve então um servo que não trabalhou seu dom. Preferiu culpar o patrão. O chamou de severo, exigente. Ficou com medo. Pedro Casaldáliga, Bispo e Profeta de São feliz do Araguaia, disse certa vez: que “o problema é ter medo do medo”. O medo paralisa, nos deixa inerte e às vezes indiferente. O servo também escondeu o talento. Talento que Deus o abençoou para dar fruto, para trabalhar e multiplicar.

Quantos de nós culpamos Deus pelos acontecimentos na nossa vida? Quantos de nós dizemos que Deus é muito severo e exigente em querem ser cultuado, ao menos 1 vez por semana no domingo e em 3 ou 4 horários de missa. Quantos de nós temos uma ideia de Deus que dá medo? Quantos de nós estamos com nossos talentos enterrados, meus irmãos e irmãs?

Pois bem, estas não são perguntas que eu faço a vocês. São perguntas que o evangelho faz a nós para mexer com a gente. Lembra? O evangelho tem que ser boa nova que mexe com a gente!

Um esperar em movimento

Jesus Cristo quer que esperemos seu Reinado, a sua vinda, seu julgamento final, como se espera um ladrão, vigiando. São Paulo diz em (1Ts 5.1-6) que por estarmos em Cristo, ou pelo menos por precisarmos estar em Cristo, sabemos que o dia do Senhor virá como o ladrão. O fato de sermos filhos da luz, do dia, da Ressurreição, faz com que esse dia não nos surpreenda. Esta espera subentende ficar parado. Mas esperar a vinda de Jesus, o Reino de Deus ou o Julgamento final deve ser diferente para o Cristão. O Cristão é aquele que se coloca a caminho, vai ao encontro, imita Jesus Cristo, peregrino sempre, rumo ao encontro com Jesus Cristo face a face. Esse encontro só se realiza plenamente quando o faz como a mulher em (Pr 31,10-13.19-20.30-31), a esposa forte. E nós igreja somos a noiva, a esposa de Cristo que abre suas mãos aos necessitados e estende as mãos aos pobres e teme o Senhor.  O discípulo de Jesus Cristo não é preguiçoso, inerte e indiferente.

Domingo que vem é o dia nacional dos cristãos leigos, discípulos de Jesus Cristo, nosso dia. Dia da Igreja, pois somos nós uma imensa maioria que formamos a Igreja de Jesus Cristo.

Portanto, escutemos o convite que Jesus faz hoje. Saiamos da inércia, do medo, da espera preguiçosa e vamos esperar o Senhor ocupando nosso lugar na dinâmica, no movimento do reinado de Deus, desenterrando nossos dons que Deus colocou na nossa vida segundo a nossa capacidade e oferecendo a serviço da Igreja e da Sociedade.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Amém!

A propósito do 33º Domingo do Tempo Comum. Comunidade Cristo Ressuscitado, 16 de Novembro de 2014.

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CEBS NO CONTEXTO URBANO

Compartilho com vocês este texto que fala muito a nós que participamos e vivemos nas CEBs. Nelas vivemos as diversas dificuldades da atualidade, muitas vezes fazendo-nos sentir perdidos, sem entender o que acontece, ou porque não acontece.

Espero que vocês também se animem a ler esse texto, mas principalmente, lê-lo com esperança e o coração aberto, aberto para que possamos conversar sobre ele em breve, a fim de que em comunidade possamos fazer essa experiência de fé e esperança, caminhando juntos como a Igreja deve ser, a Igreja de Jesus Cristo, a Igreja dos Apóstolos e dos Profetas de ontem e de hoje, a mesma Igreja do Papa Francisco.

E assim possamos buscar recuperar a nossa missionáriedade, mesmo que essa busca nos leve a cair as vezes, “tomar na cabeça”, “engolir sapos”, errar bastante, se acidentar no caminho, mas que busca corrigir o percurso e continuar. Pois como o Papa Francisco disse, “é melhor uma igreja acidentada por sair do que doente por se fechar”, se achando autorreferencia correndo o risco de morrer.

Robson Cavalcanti

Teólogo e leigo Católico

Eis o texto:

CEBS NO CONTEXTO URBANO

J. B. Libanio

Junho – 2011

                                   A cidade desafia o compromisso político das CEBS

A cidadedesafia as CEBs. Primeiro, como lugar do encontrosocial das pessoas nas suasrelações sociopolíticas e socioeconômicasjustas e injustas. As injustiças sociais no campo aparecem, sob certo sentido, de maneira bem escandalosa. A cidade tende a escondê-las. Ao assumir as grandes transformações culturais, as pessoas, mesmo pobres, sentem que participam de seus benefícios: eletricidade, aparelhos domésticos, produtos industrializados a preço acessível. Tal fato anestesia a consciência crítica. Dificulta as lutas. Ao vir para cidade, pensa-se que já se goza automaticamente de seus benefícios. E por isso, perde-se certa garra de luta.

                        Com efeito, gente que nas CEBs do interior reivindicava pelos próprios direitos, ao cair na grande cidade, diminui o fôlego. A cultura pós-moderna, com a inundação gigantesca de programas de TV e com outros recursos da informática, avassala a mente com propaganda. Tal universo de informação e de entretenimento termina por cansar as pessoas a ponto de elas não encontrarem energia para outras atividades. Passa-se facilmente de consciência combativa para acomodada.

                        Os líderes estudantis e operários, que, em décadas anteriores, conseguiam mobilizar os afiliados para comícios, assembléias e greves, lutam tenazmente para chegar até a eles por causa dos entraves que as cidades cada vez maiores põem e por influência da cultura pós-modernidade presentista e paralisadora.

                        As CEBs, que no passado desempenharam papel relevante na vida política do país a ponto de terem estado na origem de mobilizações e movimentos sociais populares, e também do Partido dos Trabalhadores, sofrem, nas cidades, da inércia crescente em face da política. Há enorme descrédito de tal atividade humana em conseqüência de vergonhosos escândalos por parte dos atuais políticos. Não há dia em que as manchetes não estampem casos de corrupção na administração do bem público.

                                   O arrefecimento da prática religiosa na cidade

                        A cidade em relação à prática religiosa está a provocar-lhe o arrefecimento. Dificulta o exercício dos atos religiosos que na vida rural se seguiam cuidadosamente. O problema da prática religiosa anuncia-se como um dos grandes desafios para os próximos anos. Já não se veem, com a clareza da vida rural, os antigos símbolos católicos, invadidos por outras religiões, especialmente pelas igrejas neopentecostais. As distâncias aumentam. A vida urbana acelera o ritmo das pessoas. A queixa geral: não se tem tempo para nada.

                        De fato, na cidade o problema do tempo se torna cada vez mais grave. Um dos entraves para o crescimento da vida das CEBs vem de as pessoas não conseguirem hora para reunir-se. Gasta-se muito tempo no trânsito. E cada vez mais. Qualquer mobilização, em que pese a maior rapidez dos meios de transporte em relação ao mundo rural, está a custar tempo. E tudo leva a crer, assim como caminha o modelo desenvolvimentista do país, que o problema da mobilidade nas cidades tende a piorar com repercussão grave sobre a freqüência aos atos religiosos. Menos tempo para eles. A vida religiosa parece minguar.

                                   A explosão das igrejas evangélicas na cidade

 

                        Paradoxalmente, a mesma cidade que impede a prática religiosa, está a provocar explosão de igrejas evangélicas. Nunca se viram tantas, sobretudo na periferia, onde habitam os candidatos melhores para as CEBs, quer porque já as conheceram antes de migrar, quer porque moram e vivem problemas semelhantes com proximidade de moradia. Tais pessoas sofrem verdadeiro ataque das igrejas neopentecostais que crescem a olhos vistos. E muitos circulam de igreja em igreja, perdendo assim compromisso duradouro, necessário para constituir CEBs. As, que se formam nas periferias, precisam de lucidez para trabalhar o surto evangélico que invade a mesma camada social pobre. Lá talvez estejam os mais pobres. Como manter viva uma CEB em face de tal desafio: Diminuição progressiva da visibilidade católica e crescimento assustador dos neopentecostais?

                                   Os pilares das CEBs

                        Importa muito conjugar a dimensão comunitária, a preocupação social e a religiosidade. Sem esses três traços a CEB perde a característica própria. A cidade inibe, sob certo aspecto, os três elementos. Dificulta as reuniões comunitárias. Reduz o tempo para a convivência e assim impede o pessoal organizar-se comunitariamente. E as CEBs que valorizam tanto o encontrar-se sofrem a angústia do isolamento urbano. Oferece a atração da Tevê com as novelas e outros programas. Sem muita motivação e empenho, dificilmente as pessoas se reúnem para leitura orante da bíblia, para celebrações e reuniões a fim de programar atividade social. E sob esta perspectiva, ela impede o empenho social.

                                   Problema das lideranças

                        Outra dificuldade para fortificar os três pilares das CEBs vem da falta de liderança. Na vida urbana, a importância da liderança se faz urgente. As CEBs necessitam descobrir e formar os líderes, para que eles congreguem as pessoas em comunidade. A cidadefragmenta a vida humana. Empurra os seushabitantespara individualismo exacerbado e anonimato doloroso. E sem pessoas capazes de congregar não fica fácil alimentar a vida de uma CEB.

                                   Parcerias na luta pela justiça social: voz ética e profética

                        Paradoxalmente, esse ponto difícil converte-se em promissor para as CEBs, se elas resgatam a dimensãohumana e justa da cidade, recorrendo à longa experiência de luta pela justiça do passado. Na sociedade civil e em determinados órgãos do Estado nos três níveis municipal, estadual e federal existem experiências sociais importantes. Há setores conscientes e lúcidos que se organizam. Se no campo as CEBs assumiam, em muitos casos, a iniciativa, toca-lhes na cidade antes o trabalho de parceria. Essa nova circunstância implica mudar a mentalidade. Passa-se de uma Igreja de Cristandade, mesmo tendo mentalidade social como nas CEBs do interior, para uma Igreja parceira do Estado, de organizações civis, de ONGs e etc. Perde-se o gostinho da liderança e da iniciativa primeira, para somar forças com outros.

                        Demanda-se das CEBs urbanas agudo sentido de discernimento entre extremos: comprometer-se unicamente quando elas exercem protagonismo ou sucumbir à sedução da acomodação urbana, muito a gosto do sistema neoliberal. Parceria crítica e profética: eis o caminho novo! Nem donas, nem afastadas dos espaçosemque jogam as cartadas decisivas da vida do cidadão urbano. Elas têm diante de sienormeresponsabilidadesocialem face do Estado, da sociedadecivil e, de modo especial, da mídia. Hoje esta se tornou instituição altamente poderosa na construção da opinião pública. Antes de tudo, cabe às CEBs ser voz ética e profética emdefesa dos pobres, marginalizados, injustiçados e excluídos citadinos.

                        A cidade exclui ou segrega para os rincõesinóspitos as massasque as classes privilegiadas usam paramanter o próprio bem-estar. Os gigantescoscinturões de miséria, que circundam a cidademoderna, estão a exigir luta decidida e inteligenteporparte de todos os setores sensibilizados portamanhainjustiça. Chamem-se lutapelamoradia, reivindicações pormelhorescondições de vida, defesa do menorcarente e da mulher marginalizada. Os nomes se multiplicam. Mas a raiz do problema é uma só: a configuração da cidadesegundo o figurinomaior do sistema neoliberal. Ele, cadavezmais, de umlado, se torna concentrador de riquezaembenefício de minorias reduzidas, e, de outro, excludente das imensas massaspopulares. O evangelho está  a exigir das CEBs presençasempremaior do lado dos excluídos.

                                   Passagem do espaço para o interesse

                        Outro desafio importante da cidade consiste na mudança da mentalidade em relação ao espaço. No campo, as pessoas medem as atividades pelas distâncias. Em língua popular falava-se de léguas. Além do mais, para as principais atividades existia lugar próprio. Ele congregava as pessoas para tal. Assim para rezar, ia-se à igreja e aos santuários, para morar à casa, para divertir e trabalhar aos respectivos lugares. A referência principal se fixava no espaço, no lugar.

                        A cidade modifica tal concepção. Ela já não valoriza os lugares como tais. As pessoas se regem antes pelos interesses. E um lugar só se torna importante, se ele atrai e desperta interesses nas pessoas. E quanto mais interesses um lugar criar, mais é frequentado. Assim, p. ex., o shopping virou um dos lugares mais procurados. Circulam por ele milhares de pessoas o dia inteiro. Por quê? Porque lá se compra, se diverte, se encontram as pessoas, se veem lojas bonitas, se sente ambiente agradável. Diferente de simples loja do interior que tinha por única atração o produto que vendia.

                        Esse exemplo serve para entender também o espaço material da igreja. No interior, ele era procurado para cumprir as práticas religiosas. E nada mais. Se continuar da mesma maneira, na cidade as pessoas só irão lá para isso. E fora de tais atividades, fica deserto. Aliás, infelizmente, o que acontece com a maioria de nossas igrejas. Vejam a diferença respeito a certas igrejas evangélicas em que sempre há gente circulando. Por quê? Porque elas deixaram de ser simples espaço religioso e se tornaram centro de interesses. E a frequência cresce à medida que se amplia a gama de interesses.

                        Imaginemos uma paróquia que além de oferecer os serviços religiosos tradicionais, cria enorme centro de interesses. Assim, abre espaço para os jovens se encontrarem tanto para reunião religiosa, como também cultural. Organiza cursos de diversos tipos: corte e costura, primeiros socorros, preparação para o vestibular para carentes, e assim por diante. Quantos mais numerosos forem os pólos de interesse, mais será freqüentada. Aqui não há limite para a fantasia criadora da paróquia. Em miniatura, vale o mesmo das CEBs urbanas.

                        Elas estão plantadas dentro desse mundo. Se elas multiplicarem os pontos de interesse, tanto mais elas crescerão. Neste caso então, nelas se discutem política, droga, violência, trabalho, temas de fé, etc. Cada um desses campos faz girar em torno dele mais pessoas. O segredo das CEBs urbanas do futuro se encontra na capacidade que tiverem de multiplicar espaços que atraiam as pessoas das diferentes idades e desejos. Fica para elas esse gigantesco desafio de tornar-se rico pólo de interesses.

                                   O isolamento das pessoas e o cultivo do espírito comunitário

                        A cidade aproxima fisicamente as pessoas. Agrupa-as emquantidadegigantescaem rincões cadavezmenores. E curiosamente produz o efeito contrário. Em vez de socializá-las, isola-as no anonimato e no individualismo. Impera a regra: “salve-se quem puder”. Trata-se de instinto de defesa. Teme-se que estabelecer relações com as pessoas próximas traga invasões da privaticidade. Já a vida nas periferias goza de pouco âmbito para o mundo pessoal. E se se abre o leque de relacionamentos, os indivíduos se perdem numa rede de pedidos, solicitações, etc. A defesa: esconder-se atrás do desconhecimento, da indiferença até mesmo respeito ao vizinho.

                                   Então surge o desafio para as CEBs urbanas. Como conseguir um equilíbrio entre o isolamento e a invasão exagerada da intimidade num ambiente de excessiva proximidade física. O caminho vai na linha do cultivo do espírito comunitário. Este existe quando se unem autonomia e relação, a própria identidade e a diferença dos outros. E as CEBs têm muito a oferecer com a experiência de sercomunidade.

                        A origem primeira das CEBs aconteceu em torno de círculos bíblicos,  celebrações, lutas sociais. As pessoas se reuniam para rezar, debater, celebrar, organizar mutirões. Essas realidades continuam importantes e mais ainda na cidade. A questão gira como pôr esse interesse no centro e encontrar um lugar concreto e hora conveniente.

                                   CEBs evangelizam a religiosidade na cidade

 

                        As CEBs conservam a vocação de ser presença no coração da vida da cidade, carregada de problemas sociais. Cresce nas pessoas certo desejo espiritual, provocado pela violência e dureza da vida urbana. As CEBs constituem-se pequeno oásis de espiritualidade. Esse lado da vida humana parece promissor na atual sociedade tão secularizada, materialista e violenta. A explosão do fenômeno religioso reflete a carência de toque espiritual no mundo atual. Mas, ele sozinho não leva a nenhuma verdadeira fé, se não for evangelizado.

                        Soa estranho falar de evangelização da religiosidade. Mas ela se impõe. As CEBs encontram aí vasto campo de trabalho pastoral. A passagem da religiosidade para a fé se faz através de três momentos. São Marcos ensina-nos o segredo (Mc 1, 14s). Quando Jesus inicia a pregação, ele afirma quatro coisas: o tempo chegou à plenitude. Nós já vivemos esse tempo, porque Jesus já morreu e ressuscitou. Em seguida, afirma que o Reino de Deus está próximo tanto no tempo como no espaço. Próximo não quer dizer que ainda não está presente. Mas o contrário. Ele está aí bem junto de nós e de mil maneiras. Pela presença da Igreja, dos sacramentos, do irmão necessitado, da proclamação da palavra, dos toques de graça no fundo do coração de cada um de nós. Todos percebemos tal proximidade. A religiosidade e a piedade significam para muitos tal cercania. O mais importante vem depois de tal experiência. Marcos acrescenta: convertei-vos . A religiosidade que não pede conversão, ainda não se deixou evangelizar. As CEBs têm potencial poderoso de ajudar as pessoas envolvidas na onda espiritualista para que descubram a exigência de mudança de vida. Mas em que direção? Marcos acrescenta: crede na Boa Nova. Essa consiste na experiência de Deus salvador presente nesse mundo e, de modo especial, nos pobres. Aí o evangelho de Mateus completa quando Jesus no julgamento se identifica com os famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos, encarcerados (Mt 25, 31-45). A Boa Nova a que conduz a conversão resume-se, em última análise, no serviço aos pobres, necessitados, marginalizados da sociedade. Então, o último passo da conversão da religiosidade se dá no compromisso, na práxis da caridade. Experiência que as CEBs conhecem de longa data e de que, portanto, têm muita experiência.

                                   A sedução da liberdade e da autonomia

                        A cidade seduz pela aparência de liberdade e de independência que oferece. Alguém, que vivia no interior, controlado pelos olhares da família e da igreja, ao chegar à cidade, sente enorme alívio. Aqui se leva a vida que e como se quer. Desafio para as CEBs se mostrarem espaço de liberdade, de criatividade, de participação. Só com tais características, elas terão força de apelo. Os fieis as freqüentarão à medida que  perceberem a comunidade não lhes pesar como obrigação, imposição, mas como lugar de realização humana e religiosa.

                                   Da obrigação para a realização humana

                        Cabe modificar a maneira de tratar as obrigações religiosas, deslocando o acento para a alegria e o gosto de estar juntos, de celebrar a vida, de comprometer-se com os problemas importantes sociais e familiares. A vida eclesial das CEBs não aparece então como problema, mas como solução. Essa inversão alivia interiormente as pessoas. Não as buscam porque se sentem coagidas, mas porque percebem que lá existe espaço de realização humana e religiosa.

                                   Da sedução das ofertas para a solidariedade

                        A cidade desafia as CEBs urbanas, enquanto espaço das ofertas múltiplas nos diversos setores: consumo, trabalho, cultura, ascensão social, progresso pessoal. Mesmo que para muitos, vindos do campo, ela se transformou em terrível pesadelo, no entanto, não pensam voltar para a roça. Preferem continuar lá. Fica-lhes a ilusão de que o fracasso presente não vem da cidade, mas deles. E permanece então a esperança de melhor de vida.

                        Nessa situação, as CEBs, ao criar vínculo de solidariedade, oferecem lugar para seus membros se ajudarem, tomarem consciência do próprio valor e aproveitarem das ofertas diferenciadas do mundo urbano. Este comporta-se dubiamente. Acena para sonhos, mas nega a muitos a sua realização. A pastoral urbana cresce à medida que entra nessa dinâmica e procura gestar oportunidades de crescimento dos membros. E isso implica quase sempre a melhoria no campo de conhecimento: cursos profissionalizantes para os pais, possibilidade de estudo para os filhos, acesso ao mundo cultural. Quanto mais se avança na sociedade do conhecimento, as profissões exigem sempre mais saber. O uso da informatização se impõe cada vez mais. As CEBs precisam se pensar também nessa perspectiva.

                                   Do lugar do desejo e do prazer para experiências novas

                        A cidade se torna cada vez mais lugar dos desejos, do prazer, de um lado, e, da violência, do barulho, do cansaço, da confusão física e mental, do outro. As pessoas se sentem dilaceradas. Não lhes faltam ocasiões de muito gozo com enorme gama de entretenimento e com infinitas solicitações aos sentidos. No entanto, essa mesma provocação tem causado exaustão espiritual, perturbação do coração, ruído interior e, sobretudo, violência, em grande parte, como fruto da presença da sedutora droga ou do incentivo a aventuras arriscadas.

                        A evangelização vai na direção de as CEBs criarem espaços para experiências opostas: silêncio, tranquilização, paz interior e depuração do sentido de prazer. Tarefas que a vida rural não conhecia. E as CEBs urbanas encontram aí amplo campo de expansão criativa.

                                   Conclusão

                        A cidade está a exigir das CEBs transformações profundas. Vale o princípio básico de toda mudança. Olhar para o passado, recolher os valores fundamentais e conservá-los. Perceber-lhes os limites e abandoná-los. E, sobretudo entregar-se à tarefa criativa. Ficam, portanto, três perguntas para as CEBs urbanas:

1. que elementos das experiências anteriores vividas pelos membros merecem ser conservados na relação com Deus, no interior da comunidade e na prática pastoral?

2. que elementos se consideram definitivamente superados e, portanto, não cabe teimar retê-los nos três níveis da compreensão de CEBS, da experiência comunitária e da prática pastoral?

3. finalmente, que novas perspectivas a cidade abre para as CEBs nos três níveis da compreensão de CEBs, de vivência comunitária e de prática pastoral?

Texto enviado para o Secretariado Nacional do 13º Intereclesial das CEBs – Juazeiro do Norte/Ceará – 07-11 de janeiro de 2014

FONTE: TEXTO BASE 13º INTERECLESIAL DAS CEBs.