Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"


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Um esperar em movimento

Robson Cavalcanti

Referência bíblica

Mt 25 14-30

“O Reinado de Deus acontecerá como um homem que ia viajar para o estrangeiro. Chamando seus empregados, entregou seus bens a eles. A um deu cinco talentos, a outro, dois, e um ao terceiro: a cada qual de acordo com a própria capacidade. Em seguida, viajou para o estrangeiro. O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que havia recebido dois lucrou outros dois. Mas, aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão. Depois de muito tempo, o patrão voltou, e foi ajustar contas com os empregados. O empregado que havia recebido cinco talentos, entregou-lhe mais cinco, dizendo: “Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei’. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria’. Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: “Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria’. Por fim, chegou  aquele que havia recebido um talento, e disse: “Senhor, eu sei que tu és um homem severo pois colhes onde não plantaste, e recolhes onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo, e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’. O patrão lhe respondeu: «Empregado mau e preguiçoso! Você sabia que eu colho onde não plantei, e que recolho onde não semeei. Então você devia ter depositado meu dinheiro no banco, para que, na volta, eu recebesse com juros o que me pertence’. Em seguida o patrão ordenou: “Tirem dele o talento, e dêem ao que tem dez.  Porque, a todo aquele que tem, será dado mais, e terá em abundância. Mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a esse empregado inútil, joguem-no lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes”.

Introdução

Espera subentende ficar parado. Mas esperar a vinda de Jesus, o Reino de Deus ou o Julgamento final deve ser diferente para o Cristão, o Cristão é aquele que se coloca a caminho, peregrino sempre, rumo ao encontro com Jesus Cristo face a face.

Esta passagem bíblica do final do evangelho de Mateus está em forma de parábola. Anuncia o julgamento final, a volta de Jesus Cristo, o fim do mundo e o Reinado de Deus. Faz parte de um conjunto de três estórias. Domingo passado sobre as moças e o noivo, hoje sobre os talentos e domingo próximo sobre o julgamento final.

O que Deus espera de nós?

O Patrão viajante sem dia e hora para voltar

No começo dessa passagem, temos o patrão que viaja para o estrangeiro. Ele confia seus bens a três empregados de acordo com a suas capacidades. Note que o patrão sabe a capacidade de administração de cada um.

Assim como o patrão, Jesus Cristo entregou a nós, discípulos, seus bens: A construção do Reino de Deus, a Vida, a Natureza, o Mundo e tudo que há nele. Confiou a missão de anunciar até os confins da terra e principalmente de amar. Ele nunca dá uma cruz que não podemos carregar, um fardo mais pesado do que podemos suportar, ele conhece nossas capacidades.

Servos bons e fiéis

Dois servos trabalharam seus dons, multiplicou-os. Isso supõe o esforço humano e pessoal de transformar a obra confiada. Os dons se multiplicam na medida que o trabalhamos. E Deus sabe e você sabe ai no seu coração, o que você tem capacidade de exercer por Jesus Cristo. Por exemplo, na Igreja. Tenho certeza que muitos de nós temos total capacidade de realizar diversas coisas que possam ser feitas na Igreja. Deus nos deu esta capacidade. Mas é preciso trabalhá-las. Existem exercícios físicos, muitos o fazem, desde os jovens aos da melhor idade. Mas quantos de nós exercitamos o Espírito. Sim existem exercícios espirituais também.

Servo mau e preguiçoso

Houve então um servo que não trabalhou seu dom. Preferiu culpar o patrão. O chamou de severo, exigente. Ficou com medo. Pedro Casaldáliga, Bispo e Profeta de São feliz do Araguaia, disse certa vez: que “o problema é ter medo do medo”. O medo paralisa, nos deixa inerte e às vezes indiferente. O servo também escondeu o talento. Talento que Deus o abençoou para dar fruto, para trabalhar e multiplicar.

Quantos de nós culpamos Deus pelos acontecimentos na nossa vida? Quantos de nós dizemos que Deus é muito severo e exigente em querem ser cultuado, ao menos 1 vez por semana no domingo e em 3 ou 4 horários de missa. Quantos de nós temos uma ideia de Deus que dá medo? Quantos de nós estamos com nossos talentos enterrados, meus irmãos e irmãs?

Pois bem, estas não são perguntas que eu faço a vocês. São perguntas que o evangelho faz a nós para mexer com a gente. Lembra? O evangelho tem que ser boa nova que mexe com a gente!

Um esperar em movimento

Jesus Cristo quer que esperemos seu Reinado, a sua vinda, seu julgamento final, como se espera um ladrão, vigiando. São Paulo diz em (1Ts 5.1-6) que por estarmos em Cristo, ou pelo menos por precisarmos estar em Cristo, sabemos que o dia do Senhor virá como o ladrão. O fato de sermos filhos da luz, do dia, da Ressurreição, faz com que esse dia não nos surpreenda. Esta espera subentende ficar parado. Mas esperar a vinda de Jesus, o Reino de Deus ou o Julgamento final deve ser diferente para o Cristão. O Cristão é aquele que se coloca a caminho, vai ao encontro, imita Jesus Cristo, peregrino sempre, rumo ao encontro com Jesus Cristo face a face. Esse encontro só se realiza plenamente quando o faz como a mulher em (Pr 31,10-13.19-20.30-31), a esposa forte. E nós igreja somos a noiva, a esposa de Cristo que abre suas mãos aos necessitados e estende as mãos aos pobres e teme o Senhor.  O discípulo de Jesus Cristo não é preguiçoso, inerte e indiferente.

Domingo que vem é o dia nacional dos cristãos leigos, discípulos de Jesus Cristo, nosso dia. Dia da Igreja, pois somos nós uma imensa maioria que formamos a Igreja de Jesus Cristo.

Portanto, escutemos o convite que Jesus faz hoje. Saiamos da inércia, do medo, da espera preguiçosa e vamos esperar o Senhor ocupando nosso lugar na dinâmica, no movimento do reinado de Deus, desenterrando nossos dons que Deus colocou na nossa vida segundo a nossa capacidade e oferecendo a serviço da Igreja e da Sociedade.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Amém!

A propósito do 33º Domingo do Tempo Comum. Comunidade Cristo Ressuscitado, 16 de Novembro de 2014.


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Terra e Humanidade Ameaçadas! Uma reflexão a partir da carta aos Romanos

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

A Terra é considerada um organismo vivo em que a civilização humana, principalmente a partir do século XV, iniciou um processo de autodestruição através da sua degradação. Grandes estudiosos não excluem a possibilidade de que a espécie humana venha a ter seu real fim, dentre eles: “Stephen Hawking, Christian de Duve, Théodore Monod, Edward Wilson” e vários outros apontados por Leonardo Boff em seu artigo sobre o tema.[1]

A partir destas palavras iniciais, ofereço esta pequena reflexão a partir do texto de Rm 8. 18-23, onde Deus expressa a sua vontade, como projeto para toda humanidade:

“Penso que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que será revelada em nós. Pois a criação aguarda na expectativa de que se revelem os filhos de Deus. Entregue ao poder do nada – não por sua própria vontade, mas por vontade daquele que a submeteu –, a criação abriga a esperança, pois também ela será liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. Sabemos que a criação geme e sofre em dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no intimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo.” (Rm 8. 18-23)

A partir deste texto, é possível entender a vontade de Deus em revelar a sua glória à humanidade, através das nossas ações, pois somos filhos teus à sua imagem e semelhança. Segundo o autor, quem nos dá a capacidade de mudança é o Espírito de Deus, este sopro de vida dado por Deus no início das nossas vidas. Ao abrir-se à ação do Espírito Santo, a vida humana é libertada da ênfase baseada no “Eu” e entra em uma dimensão relacional, pois o Espírito Santo é relação com o Pai e o Filho. Essa vida relacional liberta contempla a perspectiva de uma salvação cósmica, ou seja, universal. O pecado, por sua vez, é também entendido na perspectiva cósmica, como um ato social e coletivo.

Outra concepção que precisamos entender está no fato de que a restauração não está baseada somente em um tempo vindouro, escatológico, distante de nós. Ao contrário, a restauração de todo o cosmos é simultâneo à restauração da vida humana a partir de uma experiência com Deus que pode acontecer aqui e agora. Neste contexto, a vida cristã é apresentada como uma mudança de paradigma, onde o ser humano sai da concepção de que ele é o centro do universo e ingressa em uma dimensão da existência em que as relações são restauradas: a relação com o outro, a relação com os fracos, a relação com os inimigos e também a relação com a ecologia, ou seja, uma relação com o universo, com todo o cosmos, com a criação de Deus. Portanto, é possível entender que não há vida Cristã que possa destruir o meio ambiente, pois um Cristianismo que não tenha comprometimento com o meio ambiente, uma das expressões da restauração da vida, encontra-se ainda preso ao corpo de morte, de pecado. A natureza é parte integrante da nova vida proporcionada pelo Espírito, que precisa ser libertada através do Espírito de Deus em nós.

Referências Bibliográficas:

BOFF, Leonardo. Os termos da discussão ecológica atual. Disponível em: <http://leonardoboff.wordpress.com/2012/06/21/os-termos-da-discussao-ecologica-atual/> em 22 de outubro de 2012.

BOFF, Leonardo. Pode a espécie humana desaparecer?. Disponível em: <http://leonardoboff.wordpress.com/2012/07/08/pode-a-especie-humana-desaparecer/> em 22 de outubro de 2012.

GARCIA, Paulo Roberto. A Ecologia na Perspectiva Neotestamentária. In: Clovis Pinto de Castro. (Org.). Meio Ambiente e Missão: a responsabilidade ecológica das Igrejas. São Bernardo do Campo: Editeo, 2003. p. 55-66.

SIQUEIRA, Tércio Machado. A ecologia vista a partir do Salmo 33. In: Clovis Pinto de Castro. (Org.). Meio Ambiente e Missão: a responsabilidade ecológica das Igrejas. São Bernardo do Campo: Editeo, 2003. p. 43-54.

Notas:

[1]     Boff, Leonardo. Pode a espécie humana desaparecer? Disponível em: <http://leonardoboff.wordpress.com/2012/07/08/pode-a-especie-humana-desaparecer/> acesso em 22 de outubro de 2012.


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EVANGELIZAÇÃO E MISSÃO PROFÉTICA

Compartrilho com vocês este estudo feito para uma proposta de projeto missionário a ser aplicado nas comunidades. Espero que possa ser util para aqueles e aquelas que convocados pelo nosso Papa Francisco, estão se colocando em estado permanente de missão. Boa leitura!

Robson Cavalcanti

Teólogo e leigo Católico

A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. (…) A todos exorto a aplicarem, com generosidade e coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos nem receios. “Evangelii Gaudium”

1ª  REFLEXÃO: Texto Bíblico: Lucas 4.18-19 

“O Espírito do Senhor está sobre mim pelo que ungiu a mim para evangelizar os pobres, enviou a mim para proclamar aos cativos a libertação e aos cegos a recuperação da visão, para enviar os oprimidos em liberdade, para proclamar um ano aceitável do Senhor”.[1]

Em Lucas 4.18-19, Jesus propõe superar a realidade através de uma ação que inicia com atitude profética que está construída em cima da leitura da realidade.

Evangelização e missão profética da Igreja Católica

A Igreja Católica Apostólica Romana na sua organização a nível Brasil, conta com a CNBB – Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, que nas suas assembléias elaboram documentos para os vários desafios da Igreja, entre eles o desafio da evangelização. Desde 2005 a ICAR[2] entende que há sempre novos desafios.

Partimos da ideia de que a evangelização compreende o anuncio da salvação (transcendente e escatológica) oferecida por Deus na pessoa de Jesus Cristo a toda criatura, dom da graça e misericórdia divina. Para nossos dias, a evangelização deve comportar uma mensagem explicita, adaptada as diversas situações vividas, visando sempre sua atualização, sobre a vida de modo geral, com seus direitos deveres, sobre a paz a justiça e sobre a libertação. Portanto, é possível afirmar que a evangelização é profundamente profética, trazendo esperança no anuncio da boa nova da salvação e da libertação a partir de Jesus Cristo, o caminho para a salvação, que torna possível a libertação da opressão, da alienação e de todo o mal.

Pelos profetas, a revelação divina foi comunicada na história da salvação. Desde Elias, passando por Moisés, trazendo consigo a experiência do Êxodo, onde Javé se faz presente no meio do povo para libertá-lo e faz uma aliança com ele. Posteriormente vemos nos profetas como Isaías, Jeremias, Miquéias, entre outros como eles, o recebimento da vocação desde o ventre materno para anunciar Deus e seus juízos e também denunciar os pecados, infidelidades, chamando todos à conversão e apontando o caminho certo. Sempre foram arautos da esperança, ao vislumbrar dias melhores a partir da confiança e amor a Deus. Com eles, é professado a esperança de uma salvação nova, de uma nova aliança e de um messias que promova a justiça e a paz, além do derramamento do Espírito Santo a toda humanidade.

No Novo Testamento é retomada a dimensão profética através de João Batista, que anuncia o Messias e a necessidade do arrependimento e da conversão. João Batista anuncia Jesus, considerado o novo profeta à luz de Moisés que vem realizar um novo Êxodo e instituir uma nova aliança, definitiva, entre Deus e a humanidade. “Jesus, o Filho de Deus, é a Palavra encarnada, o missionário do Pai, totalmente inserido na história, solidário com todos os seres humanos.”

Através do Espírito Santo, é confiada à Igreja a continuidade da profecia, onde “a dimensão profética é dimensão essencial da missão evangelizadora da Igreja.” Neste sentido, os leigos e leigas inseridos na missão profética da Igreja, são sujeitos privilegiados da inculturação do evangelho para a construção do Reino de Deus na história.

A partir destas colocações, é possível entender a busca da Igreja em evangelizar de maneira vital, em profundidade, compreendendo que se deve realizar tal feito a partir das pessoas, pois não haverá mudanças na cultura e nas estruturas sociais sem a conversão das pessoas. Além disso, o anuncio do evangelho é real quando aquele que o faz é testemunha do mistério, que experimentou Deus.

“Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9.16c)

O anuncio do evangelho para o cristão é mais do que obrigação, pois expressa a alegria de servir ao Reino de Deus, estando sempre relacionado com Cristo. Neste sentido, a comunidade de fé, expressa a assimilação da mensagem de Jesus, como comunidade de discípulos e discípulas. O grande desafio para nós cristãos e discípulos de Jesus é fazer dela uma casa e uma escola de comunhão.

Esta comunidade sinal de comunhão, não se faz voltando-se para si, mas sendo fermento dentro da sociedade, fazendo da profecia o modo de ser Igreja, deixando que os necessitados, excluídos e oprimidos se sintam em casa como real e eficaz apresentação da boa nova e do Reino de Deus.

Contudo, a profecia cristã é escatológica, ou seja, anuncia um futuro para além da história, um tempo eterno, mas que já se faz ver o brilho da luz do tempo vindouro aqui e agora. Portanto, a fé cristã se fundamenta na promessa de Deus, da segunda vinda de Cristo e não em utopias humanas. Os empenhos de constituir a fraternidade no mundo são reflexos da promessa de Jesus que está conosco até a consumação do mundo (Mt 28.20).

Assim, a salvação em Cristo, por ser transcendente e escatológica, ultrapassa todos os limites, tendo sua plena realização em Deus, ou seja, tem seu começo nesta vida, já com a certeza de que sua realização plena se dará na eternidade.[3]

No projeto nacional de evangelização

Este projeto está em consonância com as orientações da V Conferencia do CELAM em Aparecida, onde todas as Igrejas da América Latina assumiram esta Missão Continental.

Seu objetivo geral é “Abrir-se ao impulso do Espírito Santo e incentivar, nas comunidades e em cada batizado, o processo de conversão pessoal e pastoral ao estado permanente de Missão, para a Vida plena” e tem como objetivos específicos:

a)Proporcionar a alegre experiência do discipulado, no encontro com Cristo;

b)Promover a formação em todos os níveis para sustentar a conversão pessoal e pastoral do discípulo missionário;

c)Repensar as estruturas de nossa Ação Evangelizadora para um compromisso de ir e atingir a quem normalmente não é atingido;

d)Favorecer o acesso de todos, a partir dos pobres, à “atrativa oferta da vida mais digna em Cristo” (cf. DA 361);

e)Aprofundar a Missão como serviço à humanidade;

 f)Discernir os sinais do Espírito Santo na vida das pessoas e na história.[4]

Conforme a nova proposta de Aparecida, com relação à formação dos discípulos missionários, destaca-se cinco aspectos fundamentais:

“O encontro com Jesus Cristo mediante seu anúncio, fazendo-se um fio condutor que leva a pessoa a uma renovação através do testemunho pessoal, pelo anuncio deste querigma e pela ação missionária da comunidade”

“A conversão como resposta inicial de quem crê em Jesus Cristo e que buscar segui-lo conscientemente.”

“O discipulado, como amadurecimento constante no conhecimento, no amor e no seguimento de Jesus Cristo, aprofundando o mistério trinitário, seu exemplo de vida e doutrina a partir da catequese permanente e de uma vida envolvida pelos sacramentos.

“A comunhão, pois não há vida cristã sem comunidade. E não só a comunhão com a comunidade eclesial de base, mas desde a família, a paróquia, as outras comunidades de vida consagrada e também a comunhão com os irmãos e irmãs de outras tradições cristãs.”

“A missão, nascida da vontade de compartilhar esta experiência de salvação com os outros, de plenitude e alegria em Jesus Cristo.” A missão deve estar contemplada em todo processo de evangelização, porém levando sempre em consideração o grau de amadurecimento da pessoa.[5]

 2ª REFLEXÃO: Texto Bíblico: Lucas 7.18b-23

“E João tendo convocado dois dos discípulos dele, enviou-os ao Senhor dizendo: És tu o que vem ou esperamos outro? E tendo chegado a ele (Jesus), os homens disseram: João o batista enviou-nos a ti dizendo: És tu o que vem ou esperamos outro? Naquela mesma hora (Jesus) curou muitos de doenças e sofrimentos e espíritos malignos e cegos e a muitos concedeu ver. E (Jesus) respondendo disse a eles: Indo, anunciai a João as coisas que vistes e ouvistes: cegos tornam a ver, paralíticos andam, leprosos são purificados e surdos ouvem, mortos são ressuscitados, pobres são evangelizados; e bendito é quem não se escandalizar em mim.”[6]

Jesus não fica apenas nas palavras. O testemunho aqui é vivencial e viabilizado no cotidiano. Que também nós possamos transformar nossas palavras em gestos concretos.

Reflexão comunitária a partir do texto bíblico.

Reunir as lideranças da comunidade de fé analisada e refletir sobre a indicação da prática de Jesus, conforme indicação acima:

As lideranças da comunidade têm hoje como meio disponíveis de evangelização as novenas, a catequese e as missas dominicais. Acontece neste mês a novena de Nossa Senhora Aparecida e assim que ela acabar começará uma nova, para o Natal. Contudo ela conta somente com o subsídio que a Igreja produz para as novenas e não faz nenhum mapeamento aprofundado, voltado para a missão e a evangelização. As mesmas lideranças desejam fazer visitas, mas também tem receio de não atingir o objetivo já que não tem um plano elaborado. Por isso, será apresentado na próxima reunião a ser marcada este trabalho onde constam as urgências da ação evangelizadora.

Vocação universal à santidade

Ninguém é mais santo do que este Deus trindade. Ele é santo por excelência. Neste sentido se pode afirmar com legitimidade que a santidade se configura como a vocação fundamental na vida de todos os Cristãos. Podemos encontrar muitos textos bíblicos que nos remetem a esta conclusão, desde o Antigo ao Novo Testamento, como por exemplo: “sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou Santo” (Lv 19.2),[7] da qual Jesus se apropria “quando apresenta a proposta de vida que veio trazer: ‘sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito’ (Mt 5,48).” É a união com Deus que confere esta santidade por meio de Jesus Cristo a todos os Cristãos. A comunidade Cristã rapidamente adquire esta consciência da sua vocação de viver a santidade, tanto que Paulo saúda a comunidade de Corinto chamado-os de “fiéis santificados” e “chamados à santidade” (1Co 1.2), afirmando aos romanos que estes são “chamados a serem santos” (Rm 1.7). Assim, o povo se constitui como um “sacerdócio santo”, uma “nação santa” (1Pd 2.5-9). Este apelo a santidade perpassa toda a história do Cristianismo e chega até os dias de hoje.[8]

Laicidade como vocação específica dos fiéis

Como visto no capítulo anterior, o Concílio Vaticano II faz a importante afirmação dizendo que os leigos e leigas se santificam através das “tarefas humanas.”[9] Os cristãos leigos e leigas são chamados a atuar nas realidades temporais, como a realidade familiar, do trabalho, do matrimônio, da política e da participação direta nos meios populares. Esta é a sua vocação específica na qual sua santidade é cultivada, ou seja, na medida em que os leigos e leigas se comprometem com esta vocação, simultaneamente eles também se santificam. Portanto, é possível afirmar que a santidade dos cristãos leigos e cristãs leigas, que tem a natureza de valor secular, é sua vocação fundamental e que esta dimensão da vocação permite “superar de uma vez o dualismo que retira os leigos e leigas do meio do mundo, das lutas pela transformação da sociedade, fechando-os em um espiritualismo de fuga desencarnado da realidade cotidiana”.[10]

Vivendo a santidade da qual são vocacionados, os cristãos leigos e cristãs leigas cumprem sua tarefa evangelizadora no cotidiano e faz com que a Igreja expresse o projeto de Deus para toda a humanidade assumindo sua dimensão de laicidade, “sendo sal e fermento” e “vivendo a vocação universal à santidade no mundo, reconhecendo seu valor próprio e sua positividade.” É justamente neste viver que os cristãos leigos e cristãs leigas respondem o chamado de Deus à laicidade, sua vocação específica. Eles cumprem sua vocação específica animando e sustentando esta laicidade da Igreja, fazendo penetrar dentro dela os valores do mundo, como “a dignidade da pessoa humana, democracia, direitos, liberdade, responsabilidade, diversidade, diálogo e tolerância.”[11]

Chamados a criar uma “nova cultura da vida,” os cristãos leigos e cristãs leigas passam a “defender a bondade das coisas criadas”(Gn. 1.31) contra “o menosprezo e a demonização das realidades temporais que também são obras divina.” Eles alertam a Igreja para a presença de Jesus Cristo no mundo,” fazendo recuperar também “a dimensão cósmica da fé.” Portanto, a vocação dos leigos e leigas também é fazer com que a Igreja crie unidade com o mundo, entrando em plena comunhão com a criação de Deus, desfazendo a separação entre sagrado e profano e mostrando que “tudo brotou da potência criadora do Pai que no Filho criou todas as coisas,”(Cl 1.16) mostrando assim “a presença viva do Ressuscitado.”[12]

Esta vocação dos cristãos leigos e cristãs leigas “vivida no mundo, a partir do mundo e dentro do mundo,” abraça concretamente a sua laicidade, não se confundindo com a participação em atividades de cunho religioso, litúrgico e sacramental e suplências em atividades clericais. Estas atividades, na verdade, servem para abastecer a espiritualidade e dar ânimo para continuar a caminhada, na direção da sua laicidade, sua vocação para o mundo.[13]

Ao fazer esta afirmação, de maneira nenhuma se pretende colocar os cristãos leigos e cristãs leigas, fora das atividades eclesiais, pois é também entendido que eles são chamados por Deus para atuar no serviço interno das comunidades, ajudando seus pastores no exercício dos vários ministérios, conforme os dons e carismas que Espírito Santo lhes concede. É preciso considerar também que o exercício dos ministérios não ordenados refletem a resposta do chamado de Deus para o serviço da evangelização e a presença da dimensão carismática na Igreja, revelando uma Igreja cheia de dons e da graça do Espírito Santo.[14]

Além disso, é através do batismo que cada cristão leigo e cristã leiga é inserido na diakonia de Jesus e pelos sacramentos da crisma e do matrimônio são chamados a servir tanto no mundo como dentro das Igrejas “exercendo serviços diretamente ligados a hierarquia, animando, dividindo responsabilidades, evangelizando e cuidando de todos e todas que buscam a fé.[15] Mas, como ainda é presente “a teologia que faz uma contraposição entre clero e laicato,” faz-se necessário o comprometimento dos leigos e leigas em assumir mais este desafio, demonstrando que no Espírito de diakonia, nunca o clero e o laicato serão ameaça um para o outro. Daí vem a responsabilidade dos leigos e leigas em testemunhar uma Igreja de caráter ministerial, que precisa dos ministérios não ordenados para levar a boa nova de Jesus mais além.[16] As CEBs, neste sentido, se configuram como expressão desta Igreja servidora e comprometida, que estando “inserida na realidade” e mais “voltada para dimensão da laicidade” , acolhe e valoriza os ministérios não ordenados. Elas revelam abertura ao sopro do Espírito Santo, que as caracterizam como um novo jeito de ser Igreja.[17] Entre os muitos ministérios que nas CEBs possam existir, é possível destacar os de ordem externa e de ordem interna, ou seja, os que são vivenciados além da comunidade de fé e os que são vivenciados dentro da comunidade de fé. Com relação aos ministérios de ordem externa, destinados à toda humanidade na perspectiva da laicidade é possível destacar “o ministério da caridade e promoção humana, ministério político, ministério profético-crítico, ministério dos direitos humanos,” sendo a manifestação da eclesialidade da laicidade e a laicidade da eclesialidade.[18] A “vida matrimonial e familiar, se configura na máxima expressão da vocação dos cristãos leigos e cristãs leigas,” pois esta vocação revela a laicidade profunda que a caracteriza, por ser “sacramento da comunhão trinitária e da comunhão entre as pessoas humanas”, mostrando que a linguagem simbólica de estar unidos “em uma só carne”(Gn 2.25), também carrega o sentido de que “a originalidade do cristianismo é o mistério trinitário”.[19]

Quanto aos ministérios de ordem interna destacamos a contribuição dos cristãos leigos e cristã leigas “na catequese, liturgia, celebração dos sacramentos, coordenação da comunidade, entre outros, onde muitos são organizados dentro das pastorais, visando corresponder melhor a prática evangelizadora da Igreja.”[20]

 Referências Bibliográficas

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. 11º. Plano de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo: Testemunha de Jesus Cristo na Cidade. São Paulo: Secretariado Diocesano de Pastoral, 2012. 44p.

CNBB. Documentos da CNBB-25: As Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil. Brasília: Edições CNBB, 1986. 17p.

———. Documentos da CNBB-80: Evangelização e Missão Profética da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005. 144p.

———. Documentos da CNBB-88: Projeto Nacional de Evangelização: “A alegria de ser discípulo missionário”. São Paulo: Paulinas, 2008. 32p.

———. Documentos da CNBB-94: Diretrizes Gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil: 2011-2015. Brasília, Edições CNBB. 2011. 112p.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Mensagens, discursos, e documentos. Tradução de Francisco Catão. São Paulo; Paulinas, 1998. 851p.

OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de, Nossa resposta ao amor: Teologia das vocações específicas. São Paulo: IPV, Loyola, 2001. 325p.

SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Novo Testamento Interlinear Grego-Português. São Paulo, 2004. 992p.

 

[1] SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2004. op. cit. p. 226.

[2]     Igreja Católica Apostólica Romana.

[3] CNBB. Evangelização e Missão Profética da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005. p. 21-33.

[4] CNBB. Projeto Nacional de Evangelização.São Paulo: Paulinas, 2008. p. 9.

[5] CNBB. Projeto Nacional de Evangelização, 2008. p. 14-15.

[6] SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2004. op. cit. p. 244.

[7]     OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Nossa resposta ao amor: Teologia das vocações específicas. São Paulo: IPV, Loyola, 2001. p. 19.

[8]     OLIVEIRA, 2001. p. 19 e 20.

[9]     CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, 1998. Lúmen Gentiun. op. cit., p. 223-225 § 390-396.

[10]    OLIVEIRA, 2001. p. 49 e 50.

[11]    OLIVEIRA, 2001. p. 60-64.

[12]    Ibidem, p. 64-67.

[13]    Ibidem, p. 67 e 68.

[14]    OLIVEIRA, 2001. p. 101-102.

[15]    OLIVEIRA, 2001. p. 104 e 105.

[16]    Ibidem, p. 105 e 106.

[17]   CNBB. Documentos da CNBB-25: As Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil, 1986. op. cit., p.1.

[18]    OLIVEIRA, 2001. p. 113.

[19]    Ibidem, p. 116.

[20]    OLIVEIRA, 2001. p. 103.


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Mensagem do Papa para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações

 Que esta mensagem toque todos os corações, mantendo aceso o fogo do Espírito Santo, fazendo com que assumamos cada vez mais nossa vocação pastoral de leigos e leigas.

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

Eis a mensagem:

2014-01-16 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) – Foi publicada nesta quinta-feira, a mensagem do Papa Francisco para o 51º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no dia 11 de maio de 2014, IV Domingo de Páscoa. O tema é: “Vocações, testemunho da verdade”. Publicamos a seguir o texto da mensagem na íntegra:
Amados irmãos e irmãs!
1. Narra o Evangelho que «Jesus percorria as cidades e as aldeias (…). Contemplando a multidão, encheu-Se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe”» (Mt 9, 35-38). Estas palavras causam-nos surpresa, porque todos sabemos que, primeiro, é preciso lavrar, semear e cultivar, para depois, no tempo devido, se poder ceifar uma messe grande. Jesus, ao invés, afirma que «a messe é grande». Quem trabalhou para que houvesse tal resultado? A resposta é uma só: Deus. Evidentemente, o campo de que fala Jesus é a humanidade, somos nós. E a acção eficaz, que é causa de «muito fruto», deve-se à graça de Deus, à comunhão com Ele (cf. Jo 15, 5). Assim a oração, que Jesus pede à Igreja, relaciona-se com o pedido de aumentar o número daqueles que estão ao serviço do seu Reino. São Paulo, que foi um destes «colaboradores de Deus», trabalhou incansavelmente pela causa do Evangelho e da Igreja. Com a consciência de quem experimentou, pessoalmente, como a vontade salvífica de Deus é imperscrutável e como a iniciativa da graça está na origem de toda a vocação, o Apóstolo recorda aos cristãos de Corinto: «Vós sois o seu [de Deus] terreno de cultivo» (1 Cor 3, 9). Por isso, do íntimo do nosso coração, brota, primeiro, a admiração por uma messe grande que só Deus pode conceder; depois, a gratidão por um amor que sempre nos precede; e, por fim, a adoração pela obra realizada por Ele, que requer a nossa livre adesão para agir com Ele e por Ele.
2. Muitas vezes rezámos estas palavras do Salmista: «O Senhor é Deus; foi Ele quem nos criou e nós pertencemos-Lhe, somos o seu povo e as ovelhas do seu rebanho» (Sal 100/99, 3); ou então: «O Senhor escolheu para Si Jacob, e Israel, para seu domínio preferido» (Sal 135/134, 4). Nós somos «domínio» de Deus, não no sentido duma posse que torna escravos, mas dum vínculo forte que nos une a Deus e entre nós, segundo um pacto de aliança que permanece para sempre, «porque o seu amor é eterno!» (Sal 136/135, 1). Por exemplo, na narração da vocação do profeta Jeremias, Deus recorda que Ele vigia continuamente sobre a sua Palavra para que se cumpra em nós. A imagem adoptada é a do ramo da amendoeira, que é a primeira de todas as árvores a florescer, anunciando o renascimento da vida na Primavera (cf. Jr 1, 11-12). Tudo provém d’Ele e é dádiva sua: o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, mas – tranquiliza-nos o Apóstolo – «vós sois de Cristo e Cristo é de Deus» (1 Cor 3, 23). Aqui temos explicada a modalidade de pertença a Deus: através da relação única e pessoal com Jesus, que o Baptismo nos conferiu desde o início do nosso renascimento para a vida nova. Por conseguinte, é Cristo que nos interpela continuamente com a sua Palavra, pedindo para termos confiança n’Ele, amando-O «com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças» (Mc 12, 33). Embora na pluralidade das estradas, toda a vocação exige sempre um êxodo de si mesmo para centrar a própria existência em Cristo e no seu Evangelho. Quer na vida conjugal, quer nas formas de consagração religiosa, quer ainda na vida sacerdotal, é necessário superar os modos de pensar e de agir que não estão conformes com a vontade de Deus. É «um êxodo que nos leva por um caminho de adoração ao Senhor e de serviço a Ele nos irmãos e nas irmãs» (Discurso à União Internacional das Superioras Gerais, 8 de Maio de 2013). Por isso, todos somos chamados a adorar Cristo no íntimo dos nossos corações (cf. 1 Ped 3, 15), para nos deixarmos alcançar pelo impulso da graça contido na semente da Palavra, que deve crescer em nós e transformar-se em serviço concreto ao próximo. Não devemos ter medo: Deus acompanha, com paixão e perícia, a obra saída das suas mãos, em cada estação da vida. Ele nunca nos abandona! Tem a peito a realização do seu projecto sobre nós, mas pretende consegui-lo contando com a nossa adesão e a nossa colaboração.
3. Também hoje Jesus vive e caminha nas nossas realidades da vida ordinária, para Se aproximar de todos, a começar pelos últimos, e nos curar das nossas enfermidades e doenças. Dirijo-me agora àqueles que estão dispostos justamente a pôr-se à escuta da voz de Cristo, que ressoa na Igreja, para compreenderem qual possa ser a sua vocação. Convido-vos a ouvir e seguir Jesus, a deixar-vos transformar interiormente pelas suas palavras que «são espírito e são vida» (Jo 6, 63). Maria, Mãe de Jesus e nossa, repete também a nós: «Fazei o que Ele vos disser!» (Jo 2, 5). Far-vos-á bem participar, confiadamente, num caminho comunitário que saiba despertar em vós e ao vosso redor as melhores energias. A vocação é um fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor uns aos outros que se faz serviço recíproco, no contexto duma vida eclesial autêntica. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si. A vocação brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel, na experiência do amor fraterno. Porventura não disse Jesus que «por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35)?
4. Amados irmãos e irmãs, viver esta «medida alta da vida cristã ordinária» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31) significa, por vezes, ir contra a corrente e implica encontrar também obstáculos, fora e dentro de nós. O próprio Jesus nos adverte: muitas vezes a boa semente da Palavra de Deus é roubada pelo Maligno, bloqueada pelas tribulações, sufocada por preocupações e seduções mundanas (cf. Mt 13, 19-22). Todas estas dificuldades poder-nos-iam desanimar, fazendo-nos optar por caminhos aparentemente mais cómodos. Mas a verdadeira alegria dos chamados consiste em crer e experimentar que o Senhor é fiel e, com Ele, podemos caminhar, ser discípulos e testemunhas do amor de Deus, abrir o coração a grandes ideais, a coisas grandes. «Nós, cristãos, não somos escolhidos pelo Senhor para coisas pequenas; ide sempre mais além, rumo às coisas grandes. Jogai a vida por grandes ideais!» (Homilia na Missa para os crismandos, 28 de Abril de 2013). A vós, Bispos, sacerdotes, religiosos, comunidades e famílias cristãs, peço que orienteis a pastoral vocacional nesta direcção, acompanhando os jovens por percursos de santidade que, sendo pessoais, «exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31).
Disponhamos, pois, o nosso coração para que seja «boa terra» a fim de ouvir, acolher e viver a Palavra e, assim, dar fruto. Quanto mais soubermos unir-nos a Jesus pela oração, a Sagrada Escritura, a Eucaristia, os Sacramentos celebrados e vividos na Igreja, pela fraternidade vivida, tanto mais há-de crescer em nós a alegria de colaborar com Deus no serviço do Reino de misericórdia e verdade, de justiça e paz. E a colheita será grande, proporcional à graça que tivermos sabido, com docilidade, acolher em nós. Com estes votos e pedindo-vos que rezeis por mim, de coração concedo a todos a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 15 de Janeiro de 2014 [Franciscus]


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Deixar-se conquistar por Cristo!

“Olhemos para a experiência de São Paulo, que também é a experiência de Santo Inácio. O Apóstolo escreve: esforço-me para correr para a perfeição de Cristo “porque eu também fui conquistado por Jesus Cristo” (Fil 3, 12). Para Paulo, isso ocorreu no caminho de Damasco; para Inácio, na sua casa de Loyola; mas o ponto fundamental é comum: deixar-se conquistar por Cristo. Eu busco Jesus, eu sirvo Jesus, porque Ele me buscou antes, porque fui conquistado por Ele: e esse é o coração da nossa experiência. Mas Ele é primeiro, sempre.”

PAPA FRANCISCO


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Percepção de Deus na vida humana

 Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

As palavras seguintes correspondem a minha experiência com Deus, o que torna limitado a compreensão e visão do mundo. Foi um primeiro esboço de reflexão teológica no início do ano de 2009. Entretanto, considero o exercício da reflexão Teológica muito importante, porque cada experiência é única e o testemunho expressado pode nos trazer novas possibilidades de vida.

Eis o texto

Imagino que na infância não temos a vontade e nem a consciência de pensarmos em Deus, pensar sobre Deus. Lembro-me das noites em que minha mãe me ensinava a rezar, juntando as mãos, fazendo a oração do Pai Nosso, Ave Maria, santo Anjo do Senhor fazer o Sinal da Cruz e esperar adormecer. Lembro de ir a Igreja, a Paróquia e não ter a menor consciência do que estava fazendo lá. Com 9 anos tive iniciei a experiência de viver e conviver em uma comunidade eclesial de base, na favela do mangue. Lá as celebrações eram na sua maioria celebrada pelas senhoras. O padre aparecia uma vez por mês. Celebrávamos nos quintais das casas, no frio e no calor, dentro das casas nas salas, em quartos, aonde cabia gente e também celebrávamos nos barracos de madeira, sentados no chão de madeira, onde dava pra ver o rio poluído abaixo e o cheio de esgoto por toda parte. Ainda não entendia muita coisa, mas acompanhava minha mãe em tudo, deste as celebrações até as reuniões mais “quentes”. O padre era um alemão que vivia uma vida simples. Seu carro era um fusca que seus familiares da Alemanha compraram para ele. Ele dava aula para ter seu dinheiro porque não queria o da Igreja. Lembro das palavras de incentivo, dizendo para juntar o dinheirinho da coleta e do dizimo, para abrir uma poupança e para ver se dava pra comprar um pedaço de terra lá na favela. Dizia que a comunidade e a Igreja era o povo. Os ornamentos da consagração da Eucaristia nada tinham de reluzentes. Eram de barro.

Na catequese já aos 12 anos começamos a ter contado mais próximo com a Bíblia. Não lembro de muita coisa. Lembro do amor das catequistas, da dedicação que tinham por nós. Elas também diziam que nós éramos o povo de Deus. A catequese acontecia em uma sala de um prédio no bairro que depois foi ocupada e tivemos que nos reunir nas casas.

Quando cheguei na idade da pré-adolescência, comecei a pensar sobre Deus e seguindo o que me foi ensinado, acreditava em Deus Pai. As vezes pensava em Deus como um pai igual ao meu próprio Pai. Alguém muito ocupado, pouco brincalhão, rigoroso, ao mesmo tempo bondoso, pouco conversador, mas alguém que não descuidava de seu filho, preocupado com a educação e o comportamento.

Crescendo na fé da Tradição Católica, o cristão recebe os sacramentos chamados de iniciação cristã. São sacramentos do Batismo, Primeira Eucaristia e a Confirmação do Batismo, também conhecida como Crisma. Quando não temos uma maturidade na fé, a primeira impressão é de que estes sacramentos só servem para afirmar o cuidado de Deus para com a gente. Mas na medida que vamos crescendo, vivendo a fé na prática, colocando-se a serviço da comunidade, estes sacramentos tomam profundo sentido na vida do Cristão, fazendo com que tenhamos uma nova consciência de Deus, descobrindo qual é o seu projeto e quem é seu povo.

Foi na comunidade eclesial de base que comecei a fazer experiências profundas com Deus.

Tendo uma Bíblia e freqüentando Círculos bíblicos elaborados pela comunidade, comecei a ter uma outra visão e opinião sobre Deus. Por exemplo, percebi que nós todos somos o povo de Deus (Ex. 6.7), ele nos conhece desde o ventre materno, consagrando e enviando para uma missão e este povo seu, deve buscar primeiro o reino de Deus e a justiça (Lc 12.31).

Destas colocações saíram questionamentos sobre o que havia aprendido enquanto criança em relação a Deus. Perguntava aos adultos porque não conheci este Deus quando era pequeno. A melhor resposta que recebi é de que tudo tem seu tempo, seu momento. Quando somos crianças pensamos como crianças, mas depois conforme vamos crescendo a linguagem muda porque também mudamos. Encontrei o fundamento desta resposta no livro de (1 Cor 13.11), e entendi que a maturidade na fé me faz enxergar novas  perspectivas.

Encontrei no livro do profeta Jeremias a escolha e a consagração de Deus na vida de uma pessoa.

As lideranças da comunidade, entre elas, minha mãe e minha tia, incentivavam o povo ao engajamento e a participação na comunidade, ajudando em algo que fosse necessário. A palavra de Deus então fazia sentido na minha vida e a minha vida fazia sentido na palavra de Deus gerando um sentimento de participação na história do povo de Deus.

Em um determinado momento fui convidado a tocar violão nas missas e celebrações, pois até então, eram só cantadas no “gogó” sem instrumento algum. Depois fui convidado a assumir um grupo de jovens como catequista. Estando à frente do grupo, acabamos nos tornando exemplo, espelho, referência para as pessoas. Mas no início, mesmo estando naquela posição, cometia atos contraditórios, onde a pregação não estava em acordo com a prática.

Deus então interpela e mostra o caminho. Um dia de domingo, quando dando a catequese, foi feita a leitura do livro de Mateus, mais precisamente o capítulo 23. Lá o texto fala sobre as ações dos fariseus. No v.3 diz para “observar o que eles dizem, mas não imitar suas ações, pois eles falam e não praticam”. No v.4 estava escrito que “eles amarram fardos pesados e colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem se quer com um dedo”. Nos versículos seguintes falam que eles só querem se aparecer, querem ser os primeiros, ocupar os lugares de honra, serem vistos em praça e serem comprimentados, chamá-los por mestre. Esses são hipócritas. Ainda que esta mensagem tenha sido dirigida aos escribas e fariseus no contexto daquela época, essa passagem me fez refletir profundamente minhas atitudes e a partir daquele momento, procurando então centrar a minha vida no evangelho, buscando a orientação na prática de Jesus.

A passagem de (Jr 1.5) também marca muito minha vida em determinados momentos. Esta passagem para mim é a afirmação de Deus a todos e a todas que nele acreditam. Ele nos conhece e consagra desde o ventre materno, constituindo cada um e cada uma, profeta do mundo, o profeta que anuncia, mas também denuncia.

Em algumas vezes, atribui a relação desta passagem com a minha vida, pois certo dia ao participar de uma reunião com catequistas da comunidade que participo e outras da paróquia, foi transparecida certa superioridade por parte dos membros da Paróquia com relação aos membros da comunidade no que diz respeito a decisões, dizendo que estas só deveriam ser tomadas pelo grupo da paróquia.

Pedi a palavra neste momento e disse: Não concordo! Devemos partilhar tudo em comum, a exemplo dos apóstolos! (At. 2)

Então começamos a discutir o assunto e tomar a palavra de Deus como a base para o assunto tratado, refletindo a prática de Jesus que dizia que não é o servo maior que o senhor (Jô 15), percebendo que era necessária uma visão mais pautada no evangelho e menos na instituição.

Ficava perceptível então que uma prática dogmática e doutrinária, verticalizada, clericalizada, unida a uma concepção contraditória e equivocada de pastoral por parte do pároco (que agora já era outro) tem influência direta nas pessoas. Eu acredito que este é um dos maiores desafios dos leigos em relação à participação nas comunidades eclesiais de base católicas.

No entanto, a comunidade eclesial que participo tem uma característica mais popular, mais de casa. O pouco contato com o padre beneficiava a comunidade em ser mais livre para a prática de uma espiritualidade mais libertadora, mais inclusiva. Na comunidade de base, Deus é apresentado como um Deus do povo sofrido, injustiçado, menos privilegiado, mais perto da gente. O Deus de Jesus Cristo, que não ficava somente no templo, mas se manifestava nas casas, nos barracos, nos quitais, nos bairros, nas cidades, enfim no meio do povo.

Acredito que por esse motivo a comunidade eclesial aqui comentada teve no inicio, o nome de “Comunidade Povo de Deus”. O trabalho da comunidade era itinerante, pois naquela época não possuía espaço físico fixo para as atividades e celebrações. O povo ainda continua sendo menos favorecido, visto que a realidade local é composta também por uma favela.

Na atualidade a comunidade possui um espaço físico, recebeu outro nome, “Cristo Ressuscitado”, atribuído à data de sua fundação. Contudo, por influência da prática pastoral ainda mais conservadora da Igreja Católica, o serviço pastoral social deixa muito a desejar nesta realidade, o clero procura se envolver mais na comunidade eclesial agora, tentando controlar, incentivando as lideranças a priorizar as celebrações eucarísticas, o que de certa forma, inibe a ação leiga no meio do povo.

Deus assim me interpela com mais intensidade. O Deus da minha infância agora tem uma atitude diferente, pois aprendi que Deus está além das representações e símbolos que utilizamos. Também não está no céu apenas vigiando, cuidando de nós. Deus está transparente no nosso mundo. Deus tem o rosto do povo que sofre, o jeito do simples. É um Deus conosco que permite a realização de coisas boas.

 Bibliografia utilizada

MOLTMANN, Jurgen. Vida, esperança e justiça: um testamento teológico para a América Latina. São Bernardo do Campo: Editeo, 2008. 101p.

BOFF, Leonardo. Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas. Campinas: Verus,  2002. 163p.

BÍBLIA. Português. Bíblia do Peregrino. Tradução de Alonso Schokel. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2006.


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Um Cristianismo para o século XXI

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

 

Olá amigos! Paz de Cristo!

Diante da mudança de época da qual nos encontramos, acredito que seja possível pensar em um Deus que independa de Religião, pois Deus é mistério e se manifesta de uma forma que foge a nossa razão. No AT temos diversos relatos da manifestação de Deus em momentos inusitados e em povos diferentes. No NT Paulo falou no Aerópago de Deus ao um povo que somente tinha um altar ao “Deus desconhecido”. A partir dai, podemos entender que Deus é universal, manifestando ao seu modo aos povos e a toda criação. Neste sentido, o Cristianismo do século XXI necessita considerar esta dimensão, para que não caia na tentação de pregar um Deus exclusivista, um Deus meramente Cristão, fechado e enquadrado a uma religião só, diferente do apresentado na Bíblia. A História do Povo de Deus e do Cristianismo do primeiro século é marcada pela compreensão de que o mesmo Deus de Abraão, Isaac e Jacó é o mesmo Deus dos profetas e o mesmo Deus de Jesus. O Cristianismo do século XXI precisa estar em constante conversão, buscando ser cada vez mais fiel a Jesus Cristo e aos seus ensinamentos de abertura ao próximo. O Catolicismo Romano, por exemplo, perdeu um pouco desta essência evangélica, se romanizou, se burocratizou. Porém hoje temos o Papa Francisco que está tentando retomar esta perspectiva cristã evangélica, mais pé no chão, mais contextual, menos abstrata, mais simples, mais pobre, menos burocrática. Jesus era um criador de pontes. No seu tempo, Ele escandalizou a muitos com suas atitudes de pluralismo religioso e ecumênicas, ao enviar discípulos a todas as nações até os confins da terra, falando com pessoa de outros povos (a Cananéia e a Samaritana), enfatizou que o próximo é de quem me aproximo (o “bom samaritano”). Jesus orou a Deus pedindo para que sejamos um para que o mundo creia Jesus é de fato o enviado do Pai. Ou seja, Ele quer nosso testemunho de unidade! Paulo aos Gálatas também nos mostrou que em Cristo não há diferenças étnicas, de raça, cor, gênero e sexo.(Gl. 3.26-29). Mateus nos ensina onde encontrar Jesus: Nos oprimidos, nos pequeninos e principalmente na caridade. (MT 25).

Portanto, é possível ver a luz da Bíblia, que toda essa atitude universal ecumênica está dentro da lógica do Reino de Deus, pela vontade de Deus! Deus quer o amor, a misericórdia, a paz e a unidade entre a sua criação, principalmente entre aqueles que professam e o adoram. Dentro do campo teológico temos várias perspectivas com vários pontos de partida, desde uma abordagem mais centrada em Deus (Teocêntrica), outra mais centrada em Jesus Cristo (Cristocêntrica) e por ai vai. Porém a partir do século XX e neste século XXI, estamos sendo chamados a considerar a perspectiva a partir do Reino de Deus (Reinocêntrica). Esta abordagem ajudará cada vez mais a humanidade a amar toda criação de Deus e não limitar este Reino somente a Cristãos, mas sim a todos os filhos de Deus que ele ama muito.

Que nos deixemos tocar por esta perspectiva, vontade de Deus expressa nos evangelhos.

Fiquem com Deus!