Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"


Deixe um comentário

Um esperar em movimento

Robson Cavalcanti

Referência bíblica

Mt 25 14-30

“O Reinado de Deus acontecerá como um homem que ia viajar para o estrangeiro. Chamando seus empregados, entregou seus bens a eles. A um deu cinco talentos, a outro, dois, e um ao terceiro: a cada qual de acordo com a própria capacidade. Em seguida, viajou para o estrangeiro. O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que havia recebido dois lucrou outros dois. Mas, aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão. Depois de muito tempo, o patrão voltou, e foi ajustar contas com os empregados. O empregado que havia recebido cinco talentos, entregou-lhe mais cinco, dizendo: “Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei’. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria’. Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: “Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como você foi fiel na administração de tão pouco, eu lhe confiarei muito mais. Venha participar da minha alegria’. Por fim, chegou  aquele que havia recebido um talento, e disse: “Senhor, eu sei que tu és um homem severo pois colhes onde não plantaste, e recolhes onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo, e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’. O patrão lhe respondeu: «Empregado mau e preguiçoso! Você sabia que eu colho onde não plantei, e que recolho onde não semeei. Então você devia ter depositado meu dinheiro no banco, para que, na volta, eu recebesse com juros o que me pertence’. Em seguida o patrão ordenou: “Tirem dele o talento, e dêem ao que tem dez.  Porque, a todo aquele que tem, será dado mais, e terá em abundância. Mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a esse empregado inútil, joguem-no lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes”.

Introdução

Espera subentende ficar parado. Mas esperar a vinda de Jesus, o Reino de Deus ou o Julgamento final deve ser diferente para o Cristão, o Cristão é aquele que se coloca a caminho, peregrino sempre, rumo ao encontro com Jesus Cristo face a face.

Esta passagem bíblica do final do evangelho de Mateus está em forma de parábola. Anuncia o julgamento final, a volta de Jesus Cristo, o fim do mundo e o Reinado de Deus. Faz parte de um conjunto de três estórias. Domingo passado sobre as moças e o noivo, hoje sobre os talentos e domingo próximo sobre o julgamento final.

O que Deus espera de nós?

O Patrão viajante sem dia e hora para voltar

No começo dessa passagem, temos o patrão que viaja para o estrangeiro. Ele confia seus bens a três empregados de acordo com a suas capacidades. Note que o patrão sabe a capacidade de administração de cada um.

Assim como o patrão, Jesus Cristo entregou a nós, discípulos, seus bens: A construção do Reino de Deus, a Vida, a Natureza, o Mundo e tudo que há nele. Confiou a missão de anunciar até os confins da terra e principalmente de amar. Ele nunca dá uma cruz que não podemos carregar, um fardo mais pesado do que podemos suportar, ele conhece nossas capacidades.

Servos bons e fiéis

Dois servos trabalharam seus dons, multiplicou-os. Isso supõe o esforço humano e pessoal de transformar a obra confiada. Os dons se multiplicam na medida que o trabalhamos. E Deus sabe e você sabe ai no seu coração, o que você tem capacidade de exercer por Jesus Cristo. Por exemplo, na Igreja. Tenho certeza que muitos de nós temos total capacidade de realizar diversas coisas que possam ser feitas na Igreja. Deus nos deu esta capacidade. Mas é preciso trabalhá-las. Existem exercícios físicos, muitos o fazem, desde os jovens aos da melhor idade. Mas quantos de nós exercitamos o Espírito. Sim existem exercícios espirituais também.

Servo mau e preguiçoso

Houve então um servo que não trabalhou seu dom. Preferiu culpar o patrão. O chamou de severo, exigente. Ficou com medo. Pedro Casaldáliga, Bispo e Profeta de São feliz do Araguaia, disse certa vez: que “o problema é ter medo do medo”. O medo paralisa, nos deixa inerte e às vezes indiferente. O servo também escondeu o talento. Talento que Deus o abençoou para dar fruto, para trabalhar e multiplicar.

Quantos de nós culpamos Deus pelos acontecimentos na nossa vida? Quantos de nós dizemos que Deus é muito severo e exigente em querem ser cultuado, ao menos 1 vez por semana no domingo e em 3 ou 4 horários de missa. Quantos de nós temos uma ideia de Deus que dá medo? Quantos de nós estamos com nossos talentos enterrados, meus irmãos e irmãs?

Pois bem, estas não são perguntas que eu faço a vocês. São perguntas que o evangelho faz a nós para mexer com a gente. Lembra? O evangelho tem que ser boa nova que mexe com a gente!

Um esperar em movimento

Jesus Cristo quer que esperemos seu Reinado, a sua vinda, seu julgamento final, como se espera um ladrão, vigiando. São Paulo diz em (1Ts 5.1-6) que por estarmos em Cristo, ou pelo menos por precisarmos estar em Cristo, sabemos que o dia do Senhor virá como o ladrão. O fato de sermos filhos da luz, do dia, da Ressurreição, faz com que esse dia não nos surpreenda. Esta espera subentende ficar parado. Mas esperar a vinda de Jesus, o Reino de Deus ou o Julgamento final deve ser diferente para o Cristão. O Cristão é aquele que se coloca a caminho, vai ao encontro, imita Jesus Cristo, peregrino sempre, rumo ao encontro com Jesus Cristo face a face. Esse encontro só se realiza plenamente quando o faz como a mulher em (Pr 31,10-13.19-20.30-31), a esposa forte. E nós igreja somos a noiva, a esposa de Cristo que abre suas mãos aos necessitados e estende as mãos aos pobres e teme o Senhor.  O discípulo de Jesus Cristo não é preguiçoso, inerte e indiferente.

Domingo que vem é o dia nacional dos cristãos leigos, discípulos de Jesus Cristo, nosso dia. Dia da Igreja, pois somos nós uma imensa maioria que formamos a Igreja de Jesus Cristo.

Portanto, escutemos o convite que Jesus faz hoje. Saiamos da inércia, do medo, da espera preguiçosa e vamos esperar o Senhor ocupando nosso lugar na dinâmica, no movimento do reinado de Deus, desenterrando nossos dons que Deus colocou na nossa vida segundo a nossa capacidade e oferecendo a serviço da Igreja e da Sociedade.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Amém!

A propósito do 33º Domingo do Tempo Comum. Comunidade Cristo Ressuscitado, 16 de Novembro de 2014.

Anúncios


Deixe um comentário

O Surgimento do termo “Leigo” na Igreja Cristã 1ª Parte

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

 

Acesse o texto em PDF: O Surgimento do termo Leigos na Igreja Cristã 1ª Parte

 

O termo “leigo”, segundo o dicionário Crítico de Teologia,[1] considera, em primeiro lugar, a concepção de dois campos semânticos. Um se refere à concepção moderna, na qual leigo é aquele que é independente de confissões religiosas, referente ao estado, manifestando toda a ausência de referências religiosas no sistema político e educacional. O outro campo semântico está ligado à “estruturação da igreja como sociedade religiosa, referente às pessoas ligadas a atividades comuns dos que são batizados, ao contrário dos clérigos, que além de serem batizados, recebem o sacramento da ordem e orientações para atos de governo, ensino e presidência dos cultos”[2].

A palavra leigo do grego la»kçv significa “aquele que pertence ao povo ou provém dele: não oficial, civil, comum”.[3] Um termo que infelizmente deixa sua lacuna bíblica, por estar ausente no Antigo e no Novo Testamento. Porém, é válido enfatizar que embora este termo não apareça nas Sagradas Escrituras, é um adjetivo derivado da palavra laçv, que quer dizer povo. Logo, é possível constatar a abundância do termo laçv percorrendo por toda a Bíblia. Por exemplo, ao apresentar “citações chaves do livro do Êxodo (Êx 19.5), que é retomada no Novo Testamento, na primeira epístola de Pedro (1Pd 2.5,9) e Apocalipse (Ap. 1.6; 5.10;20.6). Também no livro de Levíticos (Lv 25.12) e Jeremias (Jr 31,33) retomadas na Segunda carta de Paulo aos Coríntios (2Cor 6.16); Hebreus (Hb 8.10) e Apocalipse (Ap. 21.3); ver (Grelot 1970)”.[4]

“O la»kçv, portanto, significa aquele que pertence ao povo de Deus, guardador e herdeiro da aliança, povo santo. Quer dizer Igreja em seu sentido primeiro e, por conseguinte, é uma palavra que tanto na linguagem judaica como depois na linguagem cristã, designa propriamente para povo consagrado por oposição aos povos profanos.”[5]

Na mesma linha, Almeida entende que no Novo testamento é apresentada uma comunidade definida por sua relação com Deus ou com Cristo: “ekkles°a tou QeoÀ (Igreja de Deus), ekkles°a tou Cristou (Igreja de Cristo), laçv QeoÀ (povo de Deus), swma Cristou (corpo de Cristo)”. Este dado supõe um povo klÐtoi (eleito), de adelfoi (irmãos), constituindo uma adelfotjv (fraternidade), pessoas que professam a mesma fé.[6] “Aqueles que não eram povo agora são povo de Deus”(1Pd. 2.10), com as qualidades do povo do Antigo Testamento, de “povo sagrado, reino sacerdotal”(Ex 19.6), povo que Deus escolheu e formou para que proclamassem louvores para si.”(Is 43.20-21).[7] Se há diferenças entre sacerdotes e leigos, entre os clérigos e o laicato, estas não se encontram na Igreja do Novo Testamento. A distinção neste período se dá entre um povo consagrado a Deus e um povo ainda no mundo. Um povo alienado pelo pecado e um povo santo que não é do mundo, mas está no mundo, ou seja, um povo eleito, colocado à parte, chamado e consagrado para uma verdadeira atuação profética de testemunhar Cristo Jesus. Este povo é dotado de dons espirituais, carismas dados gratuitamente pelo Espírito Santo Deus em benefício do bem comum. (1Co 12.7). A partir destes carismas, brotam os ministérios (diakon°ai) que são a forma prática de viver estes carismas na perspectiva do serviço, distribuídos conforme Deus quer através do Espírito Santo (1Co 12.11). Portanto, é possível compreender que na Igreja primitiva, o povo de Deus é um grupo escolhido, posto a parte do mundo para professar uma mesma fé em Cristo Jesus e que os ministérios são distribuídos em vista do bem comum e não como uma distinção hierárquica.

Com relação à palavra la»kçv (leigo), de fato, é necessário reconhecer que a mesma não aparece no Novo Testamento. Considera-se, portanto, a colocação de Almeida sobe a alternativa perigosa de recorrer a anacronismos, ainda que esta pudesse expressar a realidade que a palavra leigo sugere. Neste sentido, seguiremos a sua proposta e critério por ele proposto:

Um critério seria distinguir ‘apóstolos’ e ‘chefes de comunidade’ de um lado, e os demais cristãos, do outro, que seriam considerados, então, leigos e leigas, pois respeitaria assim, o significado primitivo do termo que indica ao mesmo tempo, pertença ao povo e distinção em relação aos chefes do povo, resultando em uma atitude de respeito ao texto, fugindo da atitude de violência para com o mesmo, uma vez que o Novo Testamento não recorre a este termo.[8]

A necessidade de explicar esta questão está no fato de revelar uma atitude de responsabilidade e respeito pelo texto bíblico e pelos leitores, pois muitos vivem confundidos com muitas afirmações quanto à presença ou não do termo na Bíblia, mas sem um mínimo de explicação. Ao adotar este critério, diversos personagens bíblicos são identificados como leigos leigas que atuaram contribuindo com o apostolado. Como exemplo, temos a Mãe de João Marcos que cedeu sua habitação para acolher Pedro depois que o Senhor o tirou da prisão (At 12.12-17), Lídia, (At 16.12-15), Áquila e Prisca que desempenharam o ministério de didáscalos (mestres, doutrores), considerados os responsáveis por essa tradição leiga na Igreja Posterior,[9] além de serem amigáveis hospitaleiros (At 18.2-3) e generosos cooperadores de Paulo (Rm 16.3), assim como muitos outros como Tirano (At 19.9), Ninfa (Cl 4.15), Filemon (Fm), Caio (Rm 16.23), etc. Outros ajudaram especificamente Paulo em seu trabalho missionário, como por exemplo, Evódia, Síntique, Clemente e outros colaboradores que trabalharam no Evangelho com Paulo (Fl 4.2-3); Trifena, Trifosa e Pérside, as quais trabalharam muito no Senhor (Rm 16.12); Aristaco, companheiro de prisão, Marcos, Jesus o justo, Eprafas cooperadores no Reino de Deus (Rm 16.10-12); Epafrodito, irmão cooperador, que mesmo a beira da morte por amor a obra de Cristo foi enviado aos Filipenses para suprir a falta do vosso serviço (Fl 2.25-30) e tantos outros.[10]

Portanto, é possível identificar os vários ministérios e serviços que Deus realiza, assumidos pelos cristãos “leigos e leigas.” Estes, a partir da disposição dos carismas recebidos pelo Espírito Santo, como dom de línguas, da profecia (1Co 14), são considerados profetas e doutores (At 13.1) aptos a pregar a palavra (2Tm 4.2) e consolidadores das comunidades (Ef 4.11-12). Estes cristãos, ao envolverem-se nas atividades apostólicas, testemunham o serviço e ministério que são carismas dados pelo Espírito Santo de Deus, manifestados livremente.[11]

Esta abordagem também permite olhar para personagens do Antigo Testamento como leigos e leigas, como por exemplo, os profetas, uma vez que não pertenciam ao grupo dos sacerdotes ou autoridades institucionais, mas eram entendidos como parte do povo de Deus.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Antonio José de. Leigos em Quê? Uma abordagem histórica. São Paulo: Paulinas, 2006. 374 p.

LACOSTE, Jean-Yes (dir.). Dicionário Crítico de teologia. Tradução Paulo Meneses, et al. São Paulo: Paulinas: Edições Loyola, 2004. 1967 p.

CAVALCANTI. Robson. Vocação Pastoral do Laicato: Uma reflexão teológica sobre os leigos a partir da comunidade Cristo Ressuscitado, São Paulo-SP. São Bernardo do Campo, 2012. 90 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Teologia) — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2012.

Notas:

[1]     LACOSTE, Jean-Yes (dir.). Dicionário Crítico de teologia. Tradução: Paulo Meneses. et al. São Paulo: Paulinas: Edições Loyola, 2004. p. 1967.

[2]     BOUGEOIS. “Leigo/ Laicato” In: LACOSTE, 2004. op. cit., p. 1012-1016.

[3]     Idem.

[4]     Idem.

[5]     Idem.

[6]     Idem.

[7]     ALMEIDA, 2006. op. cit., p. 20.

[8]     Ibidem, p. 21 e 22.

[9]     Ibidem, p. 27.

[10]    Ibidem, p. 22 e 23.

[11]    Ibidem, p. 26.

 

 

Compartilho este texto no intuito de contribuir com as reflexões e discussões sobre os leigos e leigas na Igreja.

 


2 Comentários

CEBS NO CONTEXTO URBANO

Compartilho com vocês este texto que fala muito a nós que participamos e vivemos nas CEBs. Nelas vivemos as diversas dificuldades da atualidade, muitas vezes fazendo-nos sentir perdidos, sem entender o que acontece, ou porque não acontece.

Espero que vocês também se animem a ler esse texto, mas principalmente, lê-lo com esperança e o coração aberto, aberto para que possamos conversar sobre ele em breve, a fim de que em comunidade possamos fazer essa experiência de fé e esperança, caminhando juntos como a Igreja deve ser, a Igreja de Jesus Cristo, a Igreja dos Apóstolos e dos Profetas de ontem e de hoje, a mesma Igreja do Papa Francisco.

E assim possamos buscar recuperar a nossa missionáriedade, mesmo que essa busca nos leve a cair as vezes, “tomar na cabeça”, “engolir sapos”, errar bastante, se acidentar no caminho, mas que busca corrigir o percurso e continuar. Pois como o Papa Francisco disse, “é melhor uma igreja acidentada por sair do que doente por se fechar”, se achando autorreferencia correndo o risco de morrer.

Robson Cavalcanti

Teólogo e leigo Católico

Eis o texto:

CEBS NO CONTEXTO URBANO

J. B. Libanio

Junho – 2011

                                   A cidade desafia o compromisso político das CEBS

A cidadedesafia as CEBs. Primeiro, como lugar do encontrosocial das pessoas nas suasrelações sociopolíticas e socioeconômicasjustas e injustas. As injustiças sociais no campo aparecem, sob certo sentido, de maneira bem escandalosa. A cidade tende a escondê-las. Ao assumir as grandes transformações culturais, as pessoas, mesmo pobres, sentem que participam de seus benefícios: eletricidade, aparelhos domésticos, produtos industrializados a preço acessível. Tal fato anestesia a consciência crítica. Dificulta as lutas. Ao vir para cidade, pensa-se que já se goza automaticamente de seus benefícios. E por isso, perde-se certa garra de luta.

                        Com efeito, gente que nas CEBs do interior reivindicava pelos próprios direitos, ao cair na grande cidade, diminui o fôlego. A cultura pós-moderna, com a inundação gigantesca de programas de TV e com outros recursos da informática, avassala a mente com propaganda. Tal universo de informação e de entretenimento termina por cansar as pessoas a ponto de elas não encontrarem energia para outras atividades. Passa-se facilmente de consciência combativa para acomodada.

                        Os líderes estudantis e operários, que, em décadas anteriores, conseguiam mobilizar os afiliados para comícios, assembléias e greves, lutam tenazmente para chegar até a eles por causa dos entraves que as cidades cada vez maiores põem e por influência da cultura pós-modernidade presentista e paralisadora.

                        As CEBs, que no passado desempenharam papel relevante na vida política do país a ponto de terem estado na origem de mobilizações e movimentos sociais populares, e também do Partido dos Trabalhadores, sofrem, nas cidades, da inércia crescente em face da política. Há enorme descrédito de tal atividade humana em conseqüência de vergonhosos escândalos por parte dos atuais políticos. Não há dia em que as manchetes não estampem casos de corrupção na administração do bem público.

                                   O arrefecimento da prática religiosa na cidade

                        A cidade em relação à prática religiosa está a provocar-lhe o arrefecimento. Dificulta o exercício dos atos religiosos que na vida rural se seguiam cuidadosamente. O problema da prática religiosa anuncia-se como um dos grandes desafios para os próximos anos. Já não se veem, com a clareza da vida rural, os antigos símbolos católicos, invadidos por outras religiões, especialmente pelas igrejas neopentecostais. As distâncias aumentam. A vida urbana acelera o ritmo das pessoas. A queixa geral: não se tem tempo para nada.

                        De fato, na cidade o problema do tempo se torna cada vez mais grave. Um dos entraves para o crescimento da vida das CEBs vem de as pessoas não conseguirem hora para reunir-se. Gasta-se muito tempo no trânsito. E cada vez mais. Qualquer mobilização, em que pese a maior rapidez dos meios de transporte em relação ao mundo rural, está a custar tempo. E tudo leva a crer, assim como caminha o modelo desenvolvimentista do país, que o problema da mobilidade nas cidades tende a piorar com repercussão grave sobre a freqüência aos atos religiosos. Menos tempo para eles. A vida religiosa parece minguar.

                                   A explosão das igrejas evangélicas na cidade

 

                        Paradoxalmente, a mesma cidade que impede a prática religiosa, está a provocar explosão de igrejas evangélicas. Nunca se viram tantas, sobretudo na periferia, onde habitam os candidatos melhores para as CEBs, quer porque já as conheceram antes de migrar, quer porque moram e vivem problemas semelhantes com proximidade de moradia. Tais pessoas sofrem verdadeiro ataque das igrejas neopentecostais que crescem a olhos vistos. E muitos circulam de igreja em igreja, perdendo assim compromisso duradouro, necessário para constituir CEBs. As, que se formam nas periferias, precisam de lucidez para trabalhar o surto evangélico que invade a mesma camada social pobre. Lá talvez estejam os mais pobres. Como manter viva uma CEB em face de tal desafio: Diminuição progressiva da visibilidade católica e crescimento assustador dos neopentecostais?

                                   Os pilares das CEBs

                        Importa muito conjugar a dimensão comunitária, a preocupação social e a religiosidade. Sem esses três traços a CEB perde a característica própria. A cidade inibe, sob certo aspecto, os três elementos. Dificulta as reuniões comunitárias. Reduz o tempo para a convivência e assim impede o pessoal organizar-se comunitariamente. E as CEBs que valorizam tanto o encontrar-se sofrem a angústia do isolamento urbano. Oferece a atração da Tevê com as novelas e outros programas. Sem muita motivação e empenho, dificilmente as pessoas se reúnem para leitura orante da bíblia, para celebrações e reuniões a fim de programar atividade social. E sob esta perspectiva, ela impede o empenho social.

                                   Problema das lideranças

                        Outra dificuldade para fortificar os três pilares das CEBs vem da falta de liderança. Na vida urbana, a importância da liderança se faz urgente. As CEBs necessitam descobrir e formar os líderes, para que eles congreguem as pessoas em comunidade. A cidadefragmenta a vida humana. Empurra os seushabitantespara individualismo exacerbado e anonimato doloroso. E sem pessoas capazes de congregar não fica fácil alimentar a vida de uma CEB.

                                   Parcerias na luta pela justiça social: voz ética e profética

                        Paradoxalmente, esse ponto difícil converte-se em promissor para as CEBs, se elas resgatam a dimensãohumana e justa da cidade, recorrendo à longa experiência de luta pela justiça do passado. Na sociedade civil e em determinados órgãos do Estado nos três níveis municipal, estadual e federal existem experiências sociais importantes. Há setores conscientes e lúcidos que se organizam. Se no campo as CEBs assumiam, em muitos casos, a iniciativa, toca-lhes na cidade antes o trabalho de parceria. Essa nova circunstância implica mudar a mentalidade. Passa-se de uma Igreja de Cristandade, mesmo tendo mentalidade social como nas CEBs do interior, para uma Igreja parceira do Estado, de organizações civis, de ONGs e etc. Perde-se o gostinho da liderança e da iniciativa primeira, para somar forças com outros.

                        Demanda-se das CEBs urbanas agudo sentido de discernimento entre extremos: comprometer-se unicamente quando elas exercem protagonismo ou sucumbir à sedução da acomodação urbana, muito a gosto do sistema neoliberal. Parceria crítica e profética: eis o caminho novo! Nem donas, nem afastadas dos espaçosemque jogam as cartadas decisivas da vida do cidadão urbano. Elas têm diante de sienormeresponsabilidadesocialem face do Estado, da sociedadecivil e, de modo especial, da mídia. Hoje esta se tornou instituição altamente poderosa na construção da opinião pública. Antes de tudo, cabe às CEBs ser voz ética e profética emdefesa dos pobres, marginalizados, injustiçados e excluídos citadinos.

                        A cidade exclui ou segrega para os rincõesinóspitos as massasque as classes privilegiadas usam paramanter o próprio bem-estar. Os gigantescoscinturões de miséria, que circundam a cidademoderna, estão a exigir luta decidida e inteligenteporparte de todos os setores sensibilizados portamanhainjustiça. Chamem-se lutapelamoradia, reivindicações pormelhorescondições de vida, defesa do menorcarente e da mulher marginalizada. Os nomes se multiplicam. Mas a raiz do problema é uma só: a configuração da cidadesegundo o figurinomaior do sistema neoliberal. Ele, cadavezmais, de umlado, se torna concentrador de riquezaembenefício de minorias reduzidas, e, de outro, excludente das imensas massaspopulares. O evangelho está  a exigir das CEBs presençasempremaior do lado dos excluídos.

                                   Passagem do espaço para o interesse

                        Outro desafio importante da cidade consiste na mudança da mentalidade em relação ao espaço. No campo, as pessoas medem as atividades pelas distâncias. Em língua popular falava-se de léguas. Além do mais, para as principais atividades existia lugar próprio. Ele congregava as pessoas para tal. Assim para rezar, ia-se à igreja e aos santuários, para morar à casa, para divertir e trabalhar aos respectivos lugares. A referência principal se fixava no espaço, no lugar.

                        A cidade modifica tal concepção. Ela já não valoriza os lugares como tais. As pessoas se regem antes pelos interesses. E um lugar só se torna importante, se ele atrai e desperta interesses nas pessoas. E quanto mais interesses um lugar criar, mais é frequentado. Assim, p. ex., o shopping virou um dos lugares mais procurados. Circulam por ele milhares de pessoas o dia inteiro. Por quê? Porque lá se compra, se diverte, se encontram as pessoas, se veem lojas bonitas, se sente ambiente agradável. Diferente de simples loja do interior que tinha por única atração o produto que vendia.

                        Esse exemplo serve para entender também o espaço material da igreja. No interior, ele era procurado para cumprir as práticas religiosas. E nada mais. Se continuar da mesma maneira, na cidade as pessoas só irão lá para isso. E fora de tais atividades, fica deserto. Aliás, infelizmente, o que acontece com a maioria de nossas igrejas. Vejam a diferença respeito a certas igrejas evangélicas em que sempre há gente circulando. Por quê? Porque elas deixaram de ser simples espaço religioso e se tornaram centro de interesses. E a frequência cresce à medida que se amplia a gama de interesses.

                        Imaginemos uma paróquia que além de oferecer os serviços religiosos tradicionais, cria enorme centro de interesses. Assim, abre espaço para os jovens se encontrarem tanto para reunião religiosa, como também cultural. Organiza cursos de diversos tipos: corte e costura, primeiros socorros, preparação para o vestibular para carentes, e assim por diante. Quantos mais numerosos forem os pólos de interesse, mais será freqüentada. Aqui não há limite para a fantasia criadora da paróquia. Em miniatura, vale o mesmo das CEBs urbanas.

                        Elas estão plantadas dentro desse mundo. Se elas multiplicarem os pontos de interesse, tanto mais elas crescerão. Neste caso então, nelas se discutem política, droga, violência, trabalho, temas de fé, etc. Cada um desses campos faz girar em torno dele mais pessoas. O segredo das CEBs urbanas do futuro se encontra na capacidade que tiverem de multiplicar espaços que atraiam as pessoas das diferentes idades e desejos. Fica para elas esse gigantesco desafio de tornar-se rico pólo de interesses.

                                   O isolamento das pessoas e o cultivo do espírito comunitário

                        A cidade aproxima fisicamente as pessoas. Agrupa-as emquantidadegigantescaem rincões cadavezmenores. E curiosamente produz o efeito contrário. Em vez de socializá-las, isola-as no anonimato e no individualismo. Impera a regra: “salve-se quem puder”. Trata-se de instinto de defesa. Teme-se que estabelecer relações com as pessoas próximas traga invasões da privaticidade. Já a vida nas periferias goza de pouco âmbito para o mundo pessoal. E se se abre o leque de relacionamentos, os indivíduos se perdem numa rede de pedidos, solicitações, etc. A defesa: esconder-se atrás do desconhecimento, da indiferença até mesmo respeito ao vizinho.

                                   Então surge o desafio para as CEBs urbanas. Como conseguir um equilíbrio entre o isolamento e a invasão exagerada da intimidade num ambiente de excessiva proximidade física. O caminho vai na linha do cultivo do espírito comunitário. Este existe quando se unem autonomia e relação, a própria identidade e a diferença dos outros. E as CEBs têm muito a oferecer com a experiência de sercomunidade.

                        A origem primeira das CEBs aconteceu em torno de círculos bíblicos,  celebrações, lutas sociais. As pessoas se reuniam para rezar, debater, celebrar, organizar mutirões. Essas realidades continuam importantes e mais ainda na cidade. A questão gira como pôr esse interesse no centro e encontrar um lugar concreto e hora conveniente.

                                   CEBs evangelizam a religiosidade na cidade

 

                        As CEBs conservam a vocação de ser presença no coração da vida da cidade, carregada de problemas sociais. Cresce nas pessoas certo desejo espiritual, provocado pela violência e dureza da vida urbana. As CEBs constituem-se pequeno oásis de espiritualidade. Esse lado da vida humana parece promissor na atual sociedade tão secularizada, materialista e violenta. A explosão do fenômeno religioso reflete a carência de toque espiritual no mundo atual. Mas, ele sozinho não leva a nenhuma verdadeira fé, se não for evangelizado.

                        Soa estranho falar de evangelização da religiosidade. Mas ela se impõe. As CEBs encontram aí vasto campo de trabalho pastoral. A passagem da religiosidade para a fé se faz através de três momentos. São Marcos ensina-nos o segredo (Mc 1, 14s). Quando Jesus inicia a pregação, ele afirma quatro coisas: o tempo chegou à plenitude. Nós já vivemos esse tempo, porque Jesus já morreu e ressuscitou. Em seguida, afirma que o Reino de Deus está próximo tanto no tempo como no espaço. Próximo não quer dizer que ainda não está presente. Mas o contrário. Ele está aí bem junto de nós e de mil maneiras. Pela presença da Igreja, dos sacramentos, do irmão necessitado, da proclamação da palavra, dos toques de graça no fundo do coração de cada um de nós. Todos percebemos tal proximidade. A religiosidade e a piedade significam para muitos tal cercania. O mais importante vem depois de tal experiência. Marcos acrescenta: convertei-vos . A religiosidade que não pede conversão, ainda não se deixou evangelizar. As CEBs têm potencial poderoso de ajudar as pessoas envolvidas na onda espiritualista para que descubram a exigência de mudança de vida. Mas em que direção? Marcos acrescenta: crede na Boa Nova. Essa consiste na experiência de Deus salvador presente nesse mundo e, de modo especial, nos pobres. Aí o evangelho de Mateus completa quando Jesus no julgamento se identifica com os famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos, encarcerados (Mt 25, 31-45). A Boa Nova a que conduz a conversão resume-se, em última análise, no serviço aos pobres, necessitados, marginalizados da sociedade. Então, o último passo da conversão da religiosidade se dá no compromisso, na práxis da caridade. Experiência que as CEBs conhecem de longa data e de que, portanto, têm muita experiência.

                                   A sedução da liberdade e da autonomia

                        A cidade seduz pela aparência de liberdade e de independência que oferece. Alguém, que vivia no interior, controlado pelos olhares da família e da igreja, ao chegar à cidade, sente enorme alívio. Aqui se leva a vida que e como se quer. Desafio para as CEBs se mostrarem espaço de liberdade, de criatividade, de participação. Só com tais características, elas terão força de apelo. Os fieis as freqüentarão à medida que  perceberem a comunidade não lhes pesar como obrigação, imposição, mas como lugar de realização humana e religiosa.

                                   Da obrigação para a realização humana

                        Cabe modificar a maneira de tratar as obrigações religiosas, deslocando o acento para a alegria e o gosto de estar juntos, de celebrar a vida, de comprometer-se com os problemas importantes sociais e familiares. A vida eclesial das CEBs não aparece então como problema, mas como solução. Essa inversão alivia interiormente as pessoas. Não as buscam porque se sentem coagidas, mas porque percebem que lá existe espaço de realização humana e religiosa.

                                   Da sedução das ofertas para a solidariedade

                        A cidade desafia as CEBs urbanas, enquanto espaço das ofertas múltiplas nos diversos setores: consumo, trabalho, cultura, ascensão social, progresso pessoal. Mesmo que para muitos, vindos do campo, ela se transformou em terrível pesadelo, no entanto, não pensam voltar para a roça. Preferem continuar lá. Fica-lhes a ilusão de que o fracasso presente não vem da cidade, mas deles. E permanece então a esperança de melhor de vida.

                        Nessa situação, as CEBs, ao criar vínculo de solidariedade, oferecem lugar para seus membros se ajudarem, tomarem consciência do próprio valor e aproveitarem das ofertas diferenciadas do mundo urbano. Este comporta-se dubiamente. Acena para sonhos, mas nega a muitos a sua realização. A pastoral urbana cresce à medida que entra nessa dinâmica e procura gestar oportunidades de crescimento dos membros. E isso implica quase sempre a melhoria no campo de conhecimento: cursos profissionalizantes para os pais, possibilidade de estudo para os filhos, acesso ao mundo cultural. Quanto mais se avança na sociedade do conhecimento, as profissões exigem sempre mais saber. O uso da informatização se impõe cada vez mais. As CEBs precisam se pensar também nessa perspectiva.

                                   Do lugar do desejo e do prazer para experiências novas

                        A cidade se torna cada vez mais lugar dos desejos, do prazer, de um lado, e, da violência, do barulho, do cansaço, da confusão física e mental, do outro. As pessoas se sentem dilaceradas. Não lhes faltam ocasiões de muito gozo com enorme gama de entretenimento e com infinitas solicitações aos sentidos. No entanto, essa mesma provocação tem causado exaustão espiritual, perturbação do coração, ruído interior e, sobretudo, violência, em grande parte, como fruto da presença da sedutora droga ou do incentivo a aventuras arriscadas.

                        A evangelização vai na direção de as CEBs criarem espaços para experiências opostas: silêncio, tranquilização, paz interior e depuração do sentido de prazer. Tarefas que a vida rural não conhecia. E as CEBs urbanas encontram aí amplo campo de expansão criativa.

                                   Conclusão

                        A cidade está a exigir das CEBs transformações profundas. Vale o princípio básico de toda mudança. Olhar para o passado, recolher os valores fundamentais e conservá-los. Perceber-lhes os limites e abandoná-los. E, sobretudo entregar-se à tarefa criativa. Ficam, portanto, três perguntas para as CEBs urbanas:

1. que elementos das experiências anteriores vividas pelos membros merecem ser conservados na relação com Deus, no interior da comunidade e na prática pastoral?

2. que elementos se consideram definitivamente superados e, portanto, não cabe teimar retê-los nos três níveis da compreensão de CEBS, da experiência comunitária e da prática pastoral?

3. finalmente, que novas perspectivas a cidade abre para as CEBs nos três níveis da compreensão de CEBs, de vivência comunitária e de prática pastoral?

Texto enviado para o Secretariado Nacional do 13º Intereclesial das CEBs – Juazeiro do Norte/Ceará – 07-11 de janeiro de 2014

FONTE: TEXTO BASE 13º INTERECLESIAL DAS CEBs.


Deixe um comentário

Reflexões para uma possível conjuntura eclesial na cidade de São Paulo

Robson Cavalcanti

Robsoncavalcanti.teologo@gmail.com

Teólogo e Leigo Católico

27-01-2014

A divulgação da análise de conjuntura social e eclesial apresentado pelo sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira[1] no 13º intereclesial das CEBs, somado aos últimos acontecimentos envolvendo o laicato da Igreja de São Paulo, algumas manifestações especificamente na Região Ipiranga, motivaram a reflexão sobre a realidade eclesial atual do laicato. Para tal tarefa, contarei com os apontamentos dos autores Renold Blank[2], Cesar Kuzma[3] além de outras referencias bibliográficas como Conclusões da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe – CELAM[4], documentação elaborada pelo CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL – CNLB[5]. O que se pretende a partir destas referências será apresentar a realidade na qual os leigos e leigas modo geral estão inseridos na Igreja, pois a “imensa maioria da Igreja é formada por leigos e leigas.”[6] A proposta é interagir com os documentos acima citados e apresentar um breve apontamento da realidade.

A realidade que nos interpela

Os Documentos da Igreja, desde o Concílio Vaticano II, e mais recentemente a V Conferência Episcopal Latino Americana realizada em Aparecida, insistem na tarefa de reconhecer e discernir os “sinais dos tempos”[7], na qual os cristãos contam com a luz do Espírito Santo de Deus.

Neste sentido, nosso desafio é olhar para esse contexto pós-industrial, das tecno-metrópoles com seus variados recursos na área de informação, tecnologia e comunicação, que acaba contribuindo para que muitas pessoas se tornem cada vez mais consumistas, individualistas, mais apáticos à pobreza, aos problemas sociais e a miséria que cerca a todos, mas que por outro lado proporcionam uma melhor formação para as pessoas, tornando-as altamente capacitadas no âmbito profissional e engajadas em áreas do saber e lê-lo a luz do Espírito Santo.

Neste contexto, as pastorais são igualmente desafiadas a lidar com pessoas que não entendem porque são chamadas de leigos e leigas, pois não se sentem leigas, ou inferiores, ou ignorantes ou sem orientação como o termo sugere e também não se identificam com o termo ovelhas, com a necessidade de serem guiadas por um pastor, no caso, o que compromete o serviço pastoral e o serviço do pastor na comunidade de fé.[8]

A postura triunfalista dominadora e autoritária presente na Igreja também contribui para o afastamento de muitos cristãos que não aceitam tal postura e que consideram um reforço às estruturas retrogradas, alienantes e opressoras, ainda que a Igreja também lute contra a opressão e esteja preferencialmente ao dos pobres e oprimidos e a favor da liberdade. Infelizmente os pontos negativos se sobressaem e por isso, são os mais destacados pela maioria dos leigos.[9]

Há questionamentos lançados à Igreja Católica Apostólica Romana[10] pelos leigos sobre tais posturas, porém não são expressão e afirmação de desamor e negação à mesma, mas é justamente o oposto, ou seja, consiste no sentimento de amor e pertença que move os leigos a questioná-la na tentativa de uma possível resolução dos conflitos existentes dentro da mesma. Isso porque ao comparar o projeto e postura da Igreja institucional e a postura e projeto de Jesus, os leigos se convencem de que existe um grande abismo entre estes dois pontos que não deveria existir. Esses dados e fatores revelam a autonomia que os leigos adquiriram neste século XXI.

Tal autonomia é influenciada pelas transições que acontecem na sociedade quanto à passagem de um modelo mais fechado, do meio rural, mais próximo dos modelos das comunidades eclesiais primitivas, para o modelo de sociedade urbana, que é mais flexível e aberta com relação ao ser humano, que exige a liberdade de escolha, fazendo dos leigos e leigas pessoas autônomas. Consequentemente, a Igreja precisa estar atenta à compreensão desta nova situação de autonomia dos leigos e leigas, que passam a abandonar a tutela e passividade e começam a perceber sua capacidade de discernimento, redescobrindo a liberdade de filhos e filhas de Deus,[11] sem desconsiderar a necessidade do acompanhamento, do cuidado e do aconselhamento pastoral. A Igreja, portanto, se vê confrontada como no primeiro século do cristianismo: um mundo plural, onde só se convence quando a mensagem consegue responder aos seus anseios de esperança.[12]

Os cristãos leigos e leigas, no atual contexto, não querem se deixar guiar como ovelhas passivas, mas são críticos em relação às estruturas eclesiais que não permitem sua maior participação e corresponsabilidade nos assuntos que as autoridades eclesiásticas restringem. Ou seja, a imagem do cristão “ovelha” vai desaparecendo e novas concepções vão sendo consideradas como: a substituição da tutela por colaboração e da obediência por cooperação responsável.[13]

A juventude neste sentido é um desafio a Igreja, pois está mergulhada neste contexto da autonomia e não aceitam qualquer impressão de tutela. A reação muitas vezes é a manifestação pública e muitas vezes a saída da instituição religiosa, ocorrendo um esvaziamento das celebrações e busca de outros campos de ação.

Os cristãos leigos também estão cansados das estruturas de dependência impostas pela ordem social, com tantas obrigações seja no trabalho, no estudo e no pagamento de tantos tributos. Ao contrário, eles querem obter autonomia e anseiam por liberdade. Contudo, se a Igreja não quebra este círculo de dependência, de continuidade com a ordem vigente, ela acaba provocando a irritação e o afastamento destes fiéis.

Portanto, os cristãos leigos não se afastam da religião, mas sim das instituições religiosas que os colocam em estado de submissão, falta de liberdade, com comportamento autoritário, posição anterior e contrária ao Concílio Vaticano II.[14]

Mas é claro que há ambiguidades em meio a este contexto eclesial e não podemos deixar de destacar algumas, como por exemplo: líderes progressistas com mentes inovadoras e espírito transformador na lógica do Concílio Vaticano II em meio a líderes conservadores, com medo do novo e que acabam por promover um projeto neoconservador e centralizador, tentando manter a estrutura antiga e fugindo do espírito do Concílio. Também há várias comunidades com seus sacerdotes que trabalham a linha de pastoral e de formação do laicato na perspectiva da comunhão, participação e da autonomia, enquanto outros optam pela formação de pessoas nos parâmetros rurais da submissão e tutela. Muitos leigos também estão descompromissados com os serviços comunitários, ou são marcados pela tradição a ponto de não quererem mudar de atitude de ovelha passiva e obediente, para protagonistas. Por outro lado, há também clérigos com atitudes opressoras a fim de manter sua estrutura de poder e leigos que são bem vistos como assistentes dos clérigos, desde que não interfiram nas suas decisões.

No entanto, esta nova mentalidade e compreensão do laicato quanto à sua autonomia questionadora, não submissa e exigente quanto os direitos dentro da igreja, é resultado de uma vivência de cristãos leigos emancipados.[15]

“Leigos ovelhas” e “leigos emancipados” são classificações feitas por Blank, e por isso é interessante uma breve explicação das mesmas.

Os leigos e leigos “ovelhas” são aqueles que por medo de novas estruturas e de assumir compromissos, preferem ficar sob a tutela da instituição eclesial com os Padres, Bispos e o Papa. Suas características principais estão centradas na atitude de obediência e de comodismo, sustentando a postura clericalista. Esta estrutura por sua vez tem muito agrado por leigos incluídos neste perfil.

Os leigos e leigas “emancipados” são aqueles que estão engajados nos serviços eclesiais e não tem interesse por brigas intra-eclesiais e discussões dogmáticas. Porém, não aceitam a tutela da Igreja institucional ou de uma autoridade clerical. Estão presentes nos processos decisórios e possuem uma boa capacidade de resolver problemas, ou seja, são acostumados a terem autonomia e senso crítico. Estes cristãos não se entendem mais como leigos na igreja, sendo assim, a expressão do tipo de cristão pós-moderno do século XXI.[16]

Todas estas situações sobre a realidade intra-eclesial revelam que estamos diante de um impasse, onde “mesmo com os avanços propostos pelo Concílio Vaticano II e pelas Conferências Episcopais, alguns setores acabam por manter certa postura clericalizada.”[17]

Este ponto é o principal gerador de dificuldades e conflitos no interior da Igreja, tornando a reflexão deste tema, uma tarefa nada fácil, visto que há tensões tanto por parte do Clero como por parte dos Leigos. Porém é preciso considerar o fato de que há membros do corpo clerical da Igreja que não tem o devido respeito “à altura pela dignidade dos fiéis através dos méritos de Cristo”[18] e que há fiéis leigos desprovidos de informação e formação. Infelizmente os fiéis leigos são vistos “como meros receptores de sacramentos e meros observantes da Lei da Igreja, devendo ser, em tudo, submissos ao poder conferido aos ministros ordenados, que compõem, desta forma, a hierarquia eclesial”.[19]

Além disso, é perceptível o temor do clero em favorecer uma abertura aos leigos para execução de atividades que podem colocar em risco seu poder absoluto, chegando ao ponto de proibi-los de exercerem as mesmas. Este posicionamento de superioridade do clero em relação aos leigos é condenado pela Igreja e fere profundamente o espírito do Concílio. Tais atitudes revelam o fechamento e a degradação do ministério ordenado, que além de não seguir a doutrina conciliar desperdiçam a chance de buscar uma ação de compartilhamento de atividades e funções que podem motivar e dar novos frutos e vocações sacerdotais.

Com essa afirmação, de maneira nenhuma se pretende atacar a hierarquia da ICAR, mas o interesse é realmente apontar para este tipo de postura que infelizmente está presente no meio eclesial. Tal postura é questionada e condenada, porque diverge da proposta de comunidade do Novo Testamento onde todos são membros de um só corpo e Cristo é a cabeça, contrariando igualmente a afirmação de que todos são guiados pelo mesmo Espírito,[20] revelando o clericalismo presente na Igreja. Por fim, temos o contra testemunho cristão em relação à unidade por parte dos clérigos e leigos que disputam o espaço eclesial em vez de se ajudarem mutuamente. Em um mundo que já possui relações fragmentadas, tais posturas acabam por reforçar ainda mais e legitimar tal situação.

Considerações finais

No entanto, a ICAR já percebeu a necessidade de quebrar paradigmas abrindo-se ao diálogo com o mundo e a sociedade contemporânea e valorizando ainda mais os fiéis e incentivando-os ao serviço pastoral e a pratica do amor, não só em documentos, mas na prática, pois sente o desafio de estar em coerência com evangelho respondendo com alegria ao chamado e ao envio de Jesus: “Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda a criatura”(Mc 16.15), sem discriminação e posturas que contradizem o testemunho cristão.

A grande novidade vem através do nosso atual Papa Francisco, que mais do que falar, vive a cada dia o testemunhando e o comportamento cristão para a Igreja e para o mundo, como bom Jesuíta que é, imitando nosso Senhor Jesus Cristo, mostrando que nós também podemos e devemos imitá-lo.

Com o Papa Francisco, acompanhamos a valorização dada aos leigos através do seu contato face a face, por telefone, eclesialmente através das entrevistas, pregações e orientações, fortalecendo tantos e tantos fiéis na fé, abrindo as portas da Igreja para um sopro confortante do Espírito Santo que coloca a Igreja Católica em um clima de alegria e esperança. E por falar em esperança, temos sabido recentemente que a comissão dos oito cardeais cogitam a possibilidade de uma congregação para os leigos, pois segundo o mesmo, o Papa quer uma nova representação para os leigos.

Portanto, mesmo sabendo que na comunidade local, nem sempre o testemunho do Papa é adotado e bem aceito, continuaremos clamando a Deus para que nos liberte da opressão, nos concedendo a força do Espírito Santo e não deixando cair a profecia, pois como o Próprio Papa disse: “Quando falta a profecia na Igreja, toma lugar o clericalismo”.

Baixe o post acessando o link:

Reflexões para uma possível conjuntura eclesial na cidade de São Paulo

 

Referências Bibliográficas

BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. 168 p.

CELAM, Documento de Aparecida. 2ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. 312 p.

————. Documentos do CELAM: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellín, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. 878p. – (clássicos de bolso).

CNLB. Texto-Base preparatório para o VI ENCONTRO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL. São Paulo: CNLB, 2011. 34 p.

KUZMA, Cesar. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009. 164 p. (Coleção Comunidade e missão)

NOTAS:


[2]     BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. 168 p.

[3]     KUZMA, Cesar. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009. 164 p. (Coleção Comunidade e missão).

[4]     CELAM, Documento de Aparecida. 12ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. 312p.

[5]     Fonte: http://www.cnlbsul1.com.br/materiais_estudos.asp?i=listar&busca=Texto-Base preparatório para o VI Encontro do CNLB. CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL – CNLB. Acesso em: 02 de Março de 2012.

[6]     CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Documentos do Celam: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellín, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. p. 678. § 94.

[7]     CELAM, Documento de Aparecida. 12ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. p. 27.

[8]     BLANK, 2008. p. 5-8.

[9]     BLANK, 2008. p. 90 e 91.

[10]    Usaremos a abreviação ICAR a partir deste ponto para se referir a Igreja Católica Apostólica Romana.

[11]    BLANK, 2008. p. 92 e 93.

[12]    Ibidem, p. 89.

[13]    Ibidem, p. 94.

[14]    BLANK, 2008. p. 23-25.

[15]    Ibidem, p. 38-40.

[16]    BLANK, 2008. p. 80-85.

[17]    KUZMA, 2009. 164 p.

[18]    KUZMA, 2009. p. 24.

[19]    Idem.

[20]    1 Cor 12.


Deixe um comentário

Mensagem do Papa para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações

 Que esta mensagem toque todos os corações, mantendo aceso o fogo do Espírito Santo, fazendo com que assumamos cada vez mais nossa vocação pastoral de leigos e leigas.

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

Eis a mensagem:

2014-01-16 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) – Foi publicada nesta quinta-feira, a mensagem do Papa Francisco para o 51º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no dia 11 de maio de 2014, IV Domingo de Páscoa. O tema é: “Vocações, testemunho da verdade”. Publicamos a seguir o texto da mensagem na íntegra:
Amados irmãos e irmãs!
1. Narra o Evangelho que «Jesus percorria as cidades e as aldeias (…). Contemplando a multidão, encheu-Se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe”» (Mt 9, 35-38). Estas palavras causam-nos surpresa, porque todos sabemos que, primeiro, é preciso lavrar, semear e cultivar, para depois, no tempo devido, se poder ceifar uma messe grande. Jesus, ao invés, afirma que «a messe é grande». Quem trabalhou para que houvesse tal resultado? A resposta é uma só: Deus. Evidentemente, o campo de que fala Jesus é a humanidade, somos nós. E a acção eficaz, que é causa de «muito fruto», deve-se à graça de Deus, à comunhão com Ele (cf. Jo 15, 5). Assim a oração, que Jesus pede à Igreja, relaciona-se com o pedido de aumentar o número daqueles que estão ao serviço do seu Reino. São Paulo, que foi um destes «colaboradores de Deus», trabalhou incansavelmente pela causa do Evangelho e da Igreja. Com a consciência de quem experimentou, pessoalmente, como a vontade salvífica de Deus é imperscrutável e como a iniciativa da graça está na origem de toda a vocação, o Apóstolo recorda aos cristãos de Corinto: «Vós sois o seu [de Deus] terreno de cultivo» (1 Cor 3, 9). Por isso, do íntimo do nosso coração, brota, primeiro, a admiração por uma messe grande que só Deus pode conceder; depois, a gratidão por um amor que sempre nos precede; e, por fim, a adoração pela obra realizada por Ele, que requer a nossa livre adesão para agir com Ele e por Ele.
2. Muitas vezes rezámos estas palavras do Salmista: «O Senhor é Deus; foi Ele quem nos criou e nós pertencemos-Lhe, somos o seu povo e as ovelhas do seu rebanho» (Sal 100/99, 3); ou então: «O Senhor escolheu para Si Jacob, e Israel, para seu domínio preferido» (Sal 135/134, 4). Nós somos «domínio» de Deus, não no sentido duma posse que torna escravos, mas dum vínculo forte que nos une a Deus e entre nós, segundo um pacto de aliança que permanece para sempre, «porque o seu amor é eterno!» (Sal 136/135, 1). Por exemplo, na narração da vocação do profeta Jeremias, Deus recorda que Ele vigia continuamente sobre a sua Palavra para que se cumpra em nós. A imagem adoptada é a do ramo da amendoeira, que é a primeira de todas as árvores a florescer, anunciando o renascimento da vida na Primavera (cf. Jr 1, 11-12). Tudo provém d’Ele e é dádiva sua: o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, mas – tranquiliza-nos o Apóstolo – «vós sois de Cristo e Cristo é de Deus» (1 Cor 3, 23). Aqui temos explicada a modalidade de pertença a Deus: através da relação única e pessoal com Jesus, que o Baptismo nos conferiu desde o início do nosso renascimento para a vida nova. Por conseguinte, é Cristo que nos interpela continuamente com a sua Palavra, pedindo para termos confiança n’Ele, amando-O «com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças» (Mc 12, 33). Embora na pluralidade das estradas, toda a vocação exige sempre um êxodo de si mesmo para centrar a própria existência em Cristo e no seu Evangelho. Quer na vida conjugal, quer nas formas de consagração religiosa, quer ainda na vida sacerdotal, é necessário superar os modos de pensar e de agir que não estão conformes com a vontade de Deus. É «um êxodo que nos leva por um caminho de adoração ao Senhor e de serviço a Ele nos irmãos e nas irmãs» (Discurso à União Internacional das Superioras Gerais, 8 de Maio de 2013). Por isso, todos somos chamados a adorar Cristo no íntimo dos nossos corações (cf. 1 Ped 3, 15), para nos deixarmos alcançar pelo impulso da graça contido na semente da Palavra, que deve crescer em nós e transformar-se em serviço concreto ao próximo. Não devemos ter medo: Deus acompanha, com paixão e perícia, a obra saída das suas mãos, em cada estação da vida. Ele nunca nos abandona! Tem a peito a realização do seu projecto sobre nós, mas pretende consegui-lo contando com a nossa adesão e a nossa colaboração.
3. Também hoje Jesus vive e caminha nas nossas realidades da vida ordinária, para Se aproximar de todos, a começar pelos últimos, e nos curar das nossas enfermidades e doenças. Dirijo-me agora àqueles que estão dispostos justamente a pôr-se à escuta da voz de Cristo, que ressoa na Igreja, para compreenderem qual possa ser a sua vocação. Convido-vos a ouvir e seguir Jesus, a deixar-vos transformar interiormente pelas suas palavras que «são espírito e são vida» (Jo 6, 63). Maria, Mãe de Jesus e nossa, repete também a nós: «Fazei o que Ele vos disser!» (Jo 2, 5). Far-vos-á bem participar, confiadamente, num caminho comunitário que saiba despertar em vós e ao vosso redor as melhores energias. A vocação é um fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor uns aos outros que se faz serviço recíproco, no contexto duma vida eclesial autêntica. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si. A vocação brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel, na experiência do amor fraterno. Porventura não disse Jesus que «por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35)?
4. Amados irmãos e irmãs, viver esta «medida alta da vida cristã ordinária» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31) significa, por vezes, ir contra a corrente e implica encontrar também obstáculos, fora e dentro de nós. O próprio Jesus nos adverte: muitas vezes a boa semente da Palavra de Deus é roubada pelo Maligno, bloqueada pelas tribulações, sufocada por preocupações e seduções mundanas (cf. Mt 13, 19-22). Todas estas dificuldades poder-nos-iam desanimar, fazendo-nos optar por caminhos aparentemente mais cómodos. Mas a verdadeira alegria dos chamados consiste em crer e experimentar que o Senhor é fiel e, com Ele, podemos caminhar, ser discípulos e testemunhas do amor de Deus, abrir o coração a grandes ideais, a coisas grandes. «Nós, cristãos, não somos escolhidos pelo Senhor para coisas pequenas; ide sempre mais além, rumo às coisas grandes. Jogai a vida por grandes ideais!» (Homilia na Missa para os crismandos, 28 de Abril de 2013). A vós, Bispos, sacerdotes, religiosos, comunidades e famílias cristãs, peço que orienteis a pastoral vocacional nesta direcção, acompanhando os jovens por percursos de santidade que, sendo pessoais, «exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31).
Disponhamos, pois, o nosso coração para que seja «boa terra» a fim de ouvir, acolher e viver a Palavra e, assim, dar fruto. Quanto mais soubermos unir-nos a Jesus pela oração, a Sagrada Escritura, a Eucaristia, os Sacramentos celebrados e vividos na Igreja, pela fraternidade vivida, tanto mais há-de crescer em nós a alegria de colaborar com Deus no serviço do Reino de misericórdia e verdade, de justiça e paz. E a colheita será grande, proporcional à graça que tivermos sabido, com docilidade, acolher em nós. Com estes votos e pedindo-vos que rezeis por mim, de coração concedo a todos a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 15 de Janeiro de 2014 [Franciscus]


Deixe um comentário

O pastor e as Ovelhas

Republico aqui o artigo do nosso querido amigo e irmão de fé Edson Gonçalves P. Oliveira Silva, presidente do CLASP, nos solidarizando e compactuando com as suas colocações. Confiantes no Cristo Ressuscitado que vence a morte e todo pecado, rezamos para que nossos pastores busquem estar mais proximos das suas ovelhas, tenham cheiro de ovelhas, pois as ovelhas conhecem seu pastor, ele chama e elas o atendem. Que eles deixem de ter cheiro de escrivaninha, de mofo, pois a Igreja é mãe e como representantes da Igreja que é mãe, não devem se corresponder por carta, recados. Mas frente a frente, com misericórdia, ensinando e não castigando ou reprimindo. Que eles se abram ao frescor que o Espírito Santo trouxe a Igreja nestes  dias!

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

Eis o artigo

Esta reflexão parte dos ensinamentos de Jesus Cristo quando quer falar do cuidado, proteção, carinho, atenção, preocupação com aqueles que Deus confiou como sendo seus filhos e filhas. Todos nós devemos ser pastores. Todos nós somos ovelhas. O quadro é facilmente compreendido principalmente por aqueles que vivem em zona rural, em lugares periféricos, onde a conturbada urbanidade não substitui as coisas simples pelas coisas da modernidade. Utilizam-se os termos “ovelha” e “pastor” para aqueles que estão vivendo uma realidade de fé, portanto numa comunidade religiosa, em especial a cristã.

Todos nós somos ovelhas sim! Na apresentação figurativa somos todos ovelhas. Ovelha é toda e qualquer pessoa que se considera filha de Deus. Nesta hora, de nada vale os títulos, as honrarias, as diferenças de cor, de classe social, gênero, diplomas, cargos, status de tudo quanto é tipo!

Que coisa maravilhosa é ser ovelha no grande rebanho do grande criador!

Todos nós devemos ser pastores. Aqueles que têm por obrigações cuidar do rebanho, garantir a proteção, segurança, alimento, vida! Assumir esta incumbência não é motivo de orgulho ou de diferenciação, pelo contrário é responsabilidade com a vida do outro!

Este quadro figurativo usado por Jesus quer apenas exemplificar em forma de parábola a relação que os lideres religiosos devem ter com seus fiéis. Uma relação de proximidade, de cuidado e amor! Interessante que recentemente o papa Francisco usou a expressão de que os “pastores com cheiro de ovelhas”.

Na palavra do papa Francisco constata que há uma preocupação pastoral com o distanciamento entre os “pastores” (papa, cardeais, bispos, padres e diáconos) e suas “ovelhas”. Distanciamento por conta de práticas ultrapassadas, como por exemplo, autoridade restrita ao poder, o exercício ministerial como meio para promoção, a coordenação centralizada, a hierarquização das relações, entre outras. O papa preocupa-se não com uma hipótese e sim com uma realidade muito presente e mais próxima do que podemos imaginar.

Os fiéis leigos também podem comportar-se de forma a não ter “cheiro de ovelhas”, pois repetem e seguem os modelos de seus pastores. Vivem na pseudo segurança e confiança de que a hierarquia o levará por caminhos seguros. Por isso, cuidado, somos todos seres limitados, somos seres humanos.

Agora vamos para a realidade concreta: nos últimos dias padres e fiéis leigos (corresponsáveis na condução pastoral) de algumas paróquias da região episcopal Ipiranga, receberam a notícia de transferências de párocos nestes próximos meses.

Alguns padres receberam oficialmente a notícia nos dias que antecediam a celebração de aniversário de suas ordenações; outros ficaram sabendo na sacristia da Catedral da Sé; outros por meio de fiéis que leram a notícia pelas redes sociais. Estes párocos que foram surpreendidos não participaram da reunião da comissão presbiteral. Lamentável notar que os padres que decidiram a vida dos demais foram os mais beneficiados e outros enganados com a promessa de uma paróquia melhor (o que não se concretizou).

Os leigos que assumem sua vocação na corresponsabilidade pastoral das respectivas comunidades estão pouco a pouco sendo informados de tal decisão. São fiéis leigos que atuam em conselhos de pastoral paroquial e ou na administração paroquial. Todos extremamente surpreendidos e entristecidos com tal notícia em pleno tempo de confraternização do Natal e do Ano Novo.

Na esperança de conhecer os motivos reais das transferências e apresentar a situação de cada comunidade um grupo de leigos e leigas, representantes dos CPPs de alguns paróquias, enviaram por meio do CLASP – Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo uma solicitação de audiência e reiteraram o pedido com cópia para a Nunciatura Apostólica. Até o presente momento nenhuma resposta.

Do pastor Cardeal Dom Odilo apenas o silêncio!

As ovelhas, também pastores e pastoras nas comunidades, após ouvir os reclamos dos demais fiéis chocados com a notícia da transferência do pároco, estão recolhendo assinaturas que serão direcionadas ao Arcebispo de São Paulo Dom Odilo Pedro Scherer e encaminhadas com cópias para a presidência da CNBB, Nunciatura Apostólica e ao Papa Francisco.

Sabemos que as transferências fazem parte da vida eclesial e é do direito do bispo. Porém o momento de Igreja em que vivemos anseia-se por novas práticas pastorais e de governo, como por exemplo, ouvir as comunidades, proporcionar transferências com tranquilidade onde padres e fiéis vão se conhecendo aos poucos, até que se concretize a transferência plena. Os padres transferidos poderiam celebrar algumas missas na futura paróquia, participar de algumas reuniões dos CPPs, conviver e aproximar-se de forma evangélica.

Por fim, o abaixo assinado já está na rua! No facebook criaram um movimento “Quero Nosso Pároco”! Já existe um blog também com a mesma temática! Mensagens são registradas no facebook do Cardeal Dom Odilo … o movimento está apenas começando!

O mais triste é que neste Natal inúmeras pessoas estão se sentido como ovelhas sem pastor! Perguntam-se: esta é a Igreja a qual pertencemos? Esta é a comunidade que quero para os meus filhos? Somos Igreja ou meramente objetos da ação pastoral? Vale de alguma coisa participar de uma comunidade de fé? Apenas uma certeza: nossa fé está em Jesus Cristo!

Não podemos continuar com estruturas e relações medievais num tempo em que se espera de verdade a conversão estrutural e pastoral, a renovação das paróquias, paróquias como comunidade de comunidades, ministérios a serviço do rebanho, um novo modelo ministerial que inclua e não exclua a grande parte do povo de Deus, homens e mulheres que vivem plenamente a sua condição régio-pastoral, sacerdotal e profética.

Edson Gonçalves P. Oliveira Silva, presidente do CLASP (25/12/2013)

Fonte:http://www.claspnet.org.br/site/?p=470


Deixe um comentário

CARTA AOS BISPOS DO BRASIL por Dom José Maria Pires, Dom Tomás Balduíno e Dom Pedro Casaldáliga.

Queridos amigos! Compartilho com vocês esta carta emocionante destes grandes homens do nosso episcopado brasileiro que sempre fortaleceram a Igreja do Pobres tão pedida pelo nosso querido Papa Francisco.

Eis o Texto:

Caros Irmãos, paz e bem!

Envio os textos em anexo a pedido de nossos irmãos Dom José Maria Pires, Dom Tomás Balduíno e Dom Pedro Casaldáliga.

Sempre unidos pelo desejo de servir,

 + Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário Geral da CNBB

Bispos Eméritos escrevem aos Bispos do Brasil

 Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás e Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, escrevem uma Carta aos Bispos do Brasil.

Eis a carta.

 15 de agosto de 2013, Festa da Assunção de Nossa Senhora.

Queridos irmãos no episcopado,

Somos três bispos eméritos que, de acordo com o ensinamento do Concílio Vaticano II, apesar de não sermos mais pastores de uma Igreja local, somos sempre participantes do Colégio episcopal, e junto com o Papa, nos sentimos responsáveis pela comunhão universal da Igreja Católica.

Alegrou-nos muito a eleição do Papa Franciscono pastoreio da Igreja, pelas suas mensagens de renovação e conversão, com seus seguidos apelos a uma maior simplicidade evangélica e maior zelo de amor pastoral por toda a Igreja. Tocou-nos também a sua recente visita ao Brasil, particularmente suas palavras aos jovens e aos bispos. Isso até nos trouxe a memória do histórico Pacto das Catacumbas.

Será que nós bispos nos damos conta do que, teologicamente, significa esse novo horizonte eclesial? No Brasil, em uma entrevista, o Papa recordou a famosa máxima medieval: “Ecclesia semper renovanda”.

Por pensar nessa nossa responsabilidade como bispos da Igreja Católica, nos permitimos esse gesto de confiança de lhes escrever essas reflexões, com um pedido fraterno para que desenvolvamos um maior diálogo a respeito.

1. A Teologia do Vaticano II sobre o ministério episcopal

O Decreto Christus Dominusdedica o 2º capítulo à relação entre bispo e Igreja Particular. Cada Diocese é apresentada como “porção do Povo de Deus” (não é mais apenas um território) e afirma que, “em cada Igreja local está e opera verdadeiramente a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica” (CD 11), pois toda Igreja local não é apenas um pedaço de Igreja ou filial do Vaticano, mas é verdadeiramente Igreja de Cristo e, assim a designa o Novo Testamento (LG 22). “Cada Igreja local é congregada pelo Espírito Santo, por meio do Evangelho, tem sua consistência própria no serviço da caridade, isto é, na missão de transformar o mundo e testemunhar o Reino de Deus. Essa missão é expressa na Eucaristia e nos sacramentos. Isso é vivido na comunhão com seu pastor, o bispo”.

Essa teologia situa o bispo não acima ou fora de sua Igreja, mas como cristão inserido no rebanho e com um ministério de serviço a seus irmãos. É a partir dessa inserção que cada bispo, local ou emérito, assim como os auxiliares e os que trabalham em funções pastorais sem dioceses,todos, enquanto portadores do dom recebido de Deus na ordenação são membros do Colégio Episcopal e responsáveis pela catolicidade da Igreja.

2. A sinodalidade necessária no século XXI

A organização do papado como estrutura monárquica centralizada foi instituída a partir do pontificado de Gregório VII, em 1078. Durante o 1º milênio do Cristianismo, o primado do bispo de Roma estava organizado de forma mais colegial e a Igreja toda era mais sinodal.

O Concílio Vaticano IIorientou a Igreja para a compreensão do episcopado como um ministério colegial. Essa inovação encontrou, durante o Concílio, a oposição de uma minoria inconformada. O assunto, na verdade, não foi suficientemente amarrado. Além disso, o Código de Direito Canônico, de 1983 e os documentos emanados pelo Vaticano, a partir de então, não priorizaram a colegialidade, mas restringiram a sua compreensão e criaram barreiras ao seu exercício. Isso foi em prol da centralização e crescente poder da Cúria romana, em detrimento das Conferências nacionais e continentais e do próprio Sínodo dos bispos, este de caráter apenas consultivo e não deliberativo, sendo que tais organismos detêm, junto com o Bispo de Roma, o supremo e pleno poder em relação à Igreja inteira.

Agora, o Papa Franciscoparece desejar restituir às estruturas da Igreja Católica e a cada uma de nossas dioceses uma organização mais sinodal e de comunhão colegiada. Nessa orientação, ele constituiu uma comissão de cardeais de todos os continentes para estudar uma possível reforma da Cúria Romana. Entretanto, para dar passos concretos e eficientes nesse caminho – e que já está acontecendo – ele precisa da nossa participação ativa e consciente. Devemos fazer isso como forma de compreender a própria função de bispos, não como meros conselheiros e auxiliares do papa, que o ajudam à medida que ele pede ou deseja e sim como pastores, encarregados com o papa de zelar pela comunhão universal e o cuidado de todas as Igrejas.

3. O cinquentenário do Concílio

Nesse momento histórico, que coincide também com o cinqüentenário do Concílio Vaticano II, a primeira contribuição que podemos dar à Igreja é assumir nossa missão de pastores que exercem o sacerdócio do Novo Testamento, não como sacerdotes da antiga lei e sim, como profetas. Isso nos obriga colaborar efetivamente com o bispo de Roma, expressando com mais liberdade e autonomia nossa opinião sobre os assuntos que pedem uma revisão pastoral e teológica. Se os bispos de todo o mundo exercessem com mais liberdade e responsabilidade fraternas o dever do diálogo e dessem sua opinião mais livre sobre vários assuntos, certamente, se quebrariam certos tabus e a Igreja conseguiria retomar o diálogo com a humanidade, que o Papa João XXIIIiniciou e o Papa Francisco está acenando.

A ocasião, pois, é de assumir o Concílio Vaticano IIatualizado, superar de uma vez por todas a tentação de Cristandade, viver dentro de uma Igreja plural e pobre, de opção pelos pobres, uma eclesiologia de participação, de libertação, de diaconia, de profecia, de martírio… Uma Igreja explicitamente ecumênica, de fé e política, de integração da Nossa América, reivindicando os plenos direitos da mulher, superando a respeito os fechamentos advindos de uma eclesiologia equivocada.

Concluído o Concílio, alguns bispos – sendo muitos do Brasil – celebraram o Pacto das Catacumbas de Santa Domitila. Eles foram seguidos por aproximadamente 500 bispos nesse compromisso de radical e profunda conversão pessoal. Foi assim que se inaugurou a recepção corajosa e profética do Concílio.

Hoje, várias pessoas, em diversas partes do mundo, estão pensando num novo Pacto das Catacumbas. Por isso, desejando contribuir com a reflexão eclesial de vocês, enviamos anexo o texto original do Primeiro Pacto.

O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco está sequestrando a centralidade do Povo de Deus na compreensão de uma Igreja, cujos membros, pelo batismo, são alçados à dignidade de “sacerdotes, profetas e reis”. O mesmo clericalismo vem excluindo o protagonismo eclesial dos leigos e leigas, fazendo o sacramento da ordem se sobrepor ao sacramento do batismo e à radical igualdade em Cristo de todos os batizados e batizadas.

Além disso, em um contexto de mundo no qual a maioria dos católicos está nos países do sul (América Latina e África), se torna importante dar à Igreja outros rostos além do costumeiro expresso na cultura ocidental. Nos nossos países, é preciso ter a liberdade de desocidentalizar a linguagem da fé e da liturgia latina, não para criarmos uma Igreja diferente, mas para enriquecermos a catolicidade eclesial.

Finalmente, está em jogo o nosso diálogo com o mundo. Está em questão qual a imagem de Deus que damos ao mundo e o testemunhamos pelo nosso modo de ser, pela linguagem de nossas celebrações e pela forma que toma nossa pastoral. Esse ponto é o que deve mais nos preocupar e exigir nossa atenção. Na Bíblia, para o Povo de Israel, “voltar ao primeiro amor”, significava retomar a mística e a espiritualidade do Êxodo.

Para as nossas Igrejas da América Latina, “voltar ao primeiro amor” é retomar a mística do Reino de Deus na caminhada junto com os pobres e a serviço de sua libertação. Em nossas dioceses, as pastorais sociais não podem ser meros apêndices da organização eclesial ou expressões menores do nosso cuidado pastoral. Ao contrário, é o que nos constitui como Igreja, assembleia reunida pelo Espírito para testemunhar que o Reino está vindo e que de fato oramos e desejamos: venha o teu Reino!

Esta hora é, sem dúvida, sobretudo para nós bispos, com urgência, a hora da ação. O Papa Francisco ao dirigir-se aos jovens na Jornada Mundial e ao dar-lhes apoio nas suas mobilizações, assim se expressou: “Quero que a Igreja saia às ruas”. Isso faz eco à entusiástica palavra do apóstolo Paulo aos Romanos: “É hora de despertar, é hora e de vestir as armas da luz” (13,11). Seja essa a nossa mística e nosso mais profundo amor.

Abraços, com fraterna amizade.

 Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba.

Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás.

Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia.

Quinta-feira, 15 de agosto de 2013

 fonte: Edson G P O Silva Presidente do CLASP