Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"


1 comentário

Amor, unidade e Trindade – Domingo da Santíssima Trindade

Robson Cavalcanti

Leigo, Católico, Teólogo e assessor da comissão de teologia e formação do CLASP

 

Referência bíblica Jo.3.16-18.

16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.

Irmãos e Irmãs, estas são palavras de Salvação. Amém!

Introdução

No nosso cotidiano, em diversos lugares que convivemos, como o trabalho, a escola, a família, as associações, percebemos a riqueza do caráter universal de Deus. Lá a Bíblia tem espaço até para aqueles que não praticam o cristianismo. Interpretada como filosofia, ou de outra forma, mesmo assim se consegue dialogar e chegar a um ponto comum: “ela traz valores para nossa vida, como o de precisarmos estar unidos para que o mundo seja melhor para nós e para as futuras gerações”. Assim entendo o evangelho e este texto. O mundo é de Deus e a salvação é para ele todo.

Neste evangelho a simpatia pelos excluídos e desprezados é visível. E neste trecho, o evangelista pretende aprofundar a interpretação salvífica da serpente, na qual Jesus se identifica, sendo enaltecido por Deus (Jo. 3.14-15). Mas aqui nos é mostrado uma novidade, raiz mais profunda do mistério que está sendo evidenciado. Deus amou tanto o mundo que nos deu seu unigênito. O termo unigênito que também pode ser traduzido por único significa imensamente querido, como foi Isaac à Abraão. É importante lembrar que este texto é dirigido à comunidade joanina, ou seja, pessoas que conheciam a fé e prática Cristã.

“Quais as características permanentes para viver uma experiência Trinitária?”

O amor do Pai…

Este amor que não faz distinção entre suas criaturas. Ama toda a sua criação e não somente nós, humanos e muito menos cristãos só porque somos sua imagem e semelhança. O amor de Deus é universal. Este amor emanado por Deus à sua criação faz com que ele doe aquilo que ele tem de mais precioso: Seu filho Jesus. Mas Deus não o entregou ao sofrimento e a morte para pagar nossos pecados com seu sangue, pois Deus não é um sanguinário, um assassino. Antes, ele doou seu filho amado, seu único filho, Jesus, dom de Deus, para manifestar seu amor e graça diante de nós e para manifestar o Reino de Deus, que aqui o evangelista preferiu chamá-lo de Vida Eterna. Para nós Cristãos aparentemente é uma tarefa fácil crer em Jesus. Mas para a época acreditar que um Judeu com dons extraordinários, que se intitulava como filho do homem, que era de fato o filho único de Deus e que através dessa fé seria garantida a vida eterna, não era uma tarefa nada fácil. Hoje, neste mundo cada dia mais corrompido pelo egoísmo, individualismo, consumismo, desamor, incredulidade e falta de esperança, somos convocados a crer no Filho de Deus imensamente amado e querido e proclamar o evangelho da libertação deste mundo, para um mundo de vida abundante, acreditando em Jesus Cristo como salvador.

A salvação no Filho…

…A salvação através de Jesus Cristo é o cumprimento da vontade de Deus que o envia ao mundo. Sabemos que a vontade de Deus consiste na vontade de que todos tenham uma vida abundante de Justiça e Paz. Portanto somos desafiados a proclamar um Deus que é amoroso e misericordioso, que não castiga ninguém, que não pesa a mão sobre ninguém, que não condena ninguém, mas que espera ansioso pela conversão do mundo ao cuidado mútuo, aos sinais do Reino que são traduzidos nos gestos de Jesus Cristo. Lembremo-nos que somos nós seres humanos dotados de inteligência, os responsáveis pela nossa própria condenação. Mais ainda, somos responsáveis pela condenação de toda a criação de Deus se não colocarmos na nossa mentalidade uma salvação plena. É de extrema necessidade que tenhamos nas nossas cabeças a dimensão da imitação dos gestos de Cristo, buscando colocar nossos passos nos passos de Jesus em vista de um mundo salvo e transformado por Deus.

A comunhão com o Espírito Santo…

…Esta comunhão gera força, fogo, que nos move pela fé, juntamente com Deus e Cristo Jesus, em vista da transformação do nosso mundo em um mundo mais humano e fraterno. Quem aceita Jesus Cristo como dom de Deus, quem na fé adere a Jesus não será condenado por ele, ao contrário, será salvo. Mas aquele que não creu, já se condenou. Hoje temos muitas pessoas que ainda não foram atingidas por Jesus. No entanto, não é a estes que está prometida a condenação da incredulidade. Nós cristãos esquecemos sempre deste trecho do evangelho, no qual ele quer tocar primeiro naqueles que já perceberam o valor vital de Jesus, que já conhecem a mensagem cristã, o caminho, a verdade, a vida, mas mesmo assim não querem acreditar. Hoje, corremos o risco de querer anunciar o evangelho aos considerados sem Deus, sem Jesus, esquecendo-se de fazer nosso dever de casa, nosso papel como cidadãos e cidadãs cristãos na construção de um mundo mais justo e digno para nossas gerações futuras. Ou ainda, nos esquecer dos problemas atuais da sociedade como a fome, a escassez dos recursos naturais, a degradação do meio ambiente a ponto de não garantirmos a vida das próximas gerações.

Conclusão

Portanto, queridos irmãos irmãs, precisamos nos perguntar se estamos engajando nossas vidas por esse Jesus que nós conhecemos como Dom do amor de Deus de forma plena e universal, que doou sua vida por todos ou só estamos enfatizando uma dimensão da vida, seja ela material ou espiritual. Quem pratica a verdade e age com lealdade como Abraão, em relação a Deus, aos irmãos e a criação inteira, dá testemunho da prática solidária, que é vontade de Deus. A obra de Cristo é o plano do amor do Pai para o mundo, na qual o amor une Pai, Filho, Espírito Santo, na mesma obra de salvação. Jesus conhece o interior de Deus e o mostra para o mundo. Deus se dá ao filho e diante disso o mundo inteiro pode encontrar a salvação, a superação dos nossos pecados. Vai depender de nós cristãos que conhecemos a verdade, o empenho de assumir atitudes de promoção da vida, que se configura no amor ao próximo que é o principal mandamento deixado por Jesus Cristo, ajudando os necessitados e principalmente envolvimento nas lutas sociais e políticas que podem de fato ter uma mudança significativa para muitos, sobretudo os pobres, atingindo inclusive aquelas pessoas que nem estão no nosso horizonte. O mistério que nos envolve hoje é o do Pai e do Filho, no seu amor para o mundo. Essa unidade no amor, Santo Agostinho a identificou como Espirito Santo.

Meus irmãos e minhas irmãs, façamos o possível para que estas características da Trindade Santa estejam gravadas em nosso coração!

Louvado Seja nosso Senhor Jesus Cristo! Amém!

Por ocasião do Domingo da Santíssima Trindade, Ano A.


Deixe um comentário

Na expectativa de Pentecostes…Por Pe. Reginaldo Veloso

Que possamos refletir as palavras deste homem,  pastor e grande poeta, do qual quase todos os domingos animamos as celebrações com suas canções. Que o Espírito Santo esteja contigo!

Robson Cavalcanti

Leigo, Católico, Teólogo e assessor da comissão de teologia e formação do CLASP

Eis o Texto:

Entre outras virtudes, as celebrações do Ano Litúrgico, através da dinâmica do “memorial”, nos propiciam a vivência sempre atualizada do Mistério da Salvação, retomando, as facetas peculiares de cada Tempo, de cada Festa, e nos levando a experimentar a força da Palavra criadora e do Espírito renovador.

Ao aproximar-se, então, mais uma vez a Festa de Pentecostes, os Domingos do tempo Pascal, fazem ecoar as promessas feitas por Jesus, especialmente no Evangelho de João, do envio do Espírito da Verdade, o Advogado, o Confortador, o Consolador. Hoje, poderíamos, ao gosto da nomenclatura atual, chamá-lo também de “Assessor”!

Que venha o Espírito prometido! Aliás, sua irrupção na História, muitas vezes, se dá da maneira mais inesperada. Temos exemplos recentes e ofuscantes: a renúncia de Bento XVI e, sobretudo, a eleição de Francisco, Bispo de Roma.

E como precisamos de que esta irrupção transformadora chegue a atingir, de maneira ampla e profunda todo o Corpo da Igreja, infectado, ao longo das últimas décadas pela retomada do mais decadente clericalismo, com a sistemática nomeação de bispos medíocres e a consequente ordenação de uma legião de presbíteros, “dotados”, ao mesmo tempo, de inescamoteável incompetência e exacerbada consciência de “poder”, pernicioso binômio, que normalmente leva à prepotência, no trato de pessoas e na gestão da vida eclesial, ao mercenarismo, ao aburguesamento e à mercantilização da vida religiosa.

O resultado lastimoso de tudo isso é a imbecilização do Povo de Deus. Assistimos atônitos ao “florescimento” de um tipo de experiência religiosa que se propaga com a velocidade de uma praga e se consubstancia da prática das “devoções” mais esdrúxulas, que vão, da venda de água benta engarrafada e rotulada, a “missas de cura”, passando por um variado leque de “terços” e “escapulários” e “bênçãos” e “correntes” e “novenas” e “adorações” e “louvores”, bem como os ruidosos e agitados megashows, com direito a todas as bizarrices possíveis, com ampla cobertura do rádio e da televisão. Aliás, há canais de TV e rádios que se dedicam exclusivamente a esse tipo de manipulação de pessoas, o mais pernicioso “produto” da onda consumista do sistema capitalista, que descobriu na “religião” seu mais novo e ubertoso filão.

É triste e preocupante assistir à banalização da Eucaristia, expressão mais significativa da vida eclesial, à mediocridade ridícula das homilias, às aberrações com relação ao culto dos Santos e Santas, sobretudo da Mãe do Senhor, em suma, à alienação religiosa, que vem esvaziando a vida de tantos cristãos, entre outras, da dimensão de Cidadania, de compromisso sócio-político, num tempo de tanta urgência.

Enquanto isso, por onde a gente passa, escutam-se os lamentos e reclamos de gente que vem das CEBs, dos Movimentos de Evangelização de cunho libertador e das Pastorais Sociais, que já não encontram arrimo nas paróquias e dioceses e vivem uma lamentável experiência de orfandade. Praticamente entregues à própria sorte, somente à custa de muito desprendimento, de heroica generosidade e espírito de militância, conseguem perseverar, em clima de resistência, num caminho evangélico de fé, esperança e fraterna solidariedade.

É, em nome desse atual “Resto de Israel”, em nome do resgate da cidadania eclesial e social, que urge articular todas as forças vivas do que resta da Igreja renascida do Concílio Vaticano II e de Medellín, em nosso país e em nosso Continente, aproveitando, por exemplo, o ensejo das comemorações do Cinquentenário conciliar, no sentido de ver “A Alegria do Evangelho”, tão oportuna e inspiradamente anunciada por papa Francisco ir, pouco a pouco, desabrochando de um verdadeiro esforço de retomada da “primavera” que o Santo João XXIII, mais de 50 anos atrás, desencadeou qual “novo Pentecostes”.

Neste sentido, façamos a próxima Novena de Pentecostes, abrindo os olhos aos “sinais dos tempos”, e os corações, aos desafios acolhidos à luz da fé bíblica como apelos de Deus, em busca de respostas criativas, profundas, eficazes e ecumênicas, na força do Espírito Santo. Ver, julgar e agir, eis o que importa, mais que nunca.

[Reginaldo Veloso é presbítero das CEBs e assistente do Movimento de Trabalhadores Cristãos – MTC – Região Nordeste 2]

Fonte: http://www.adital.com.br/?n=cq65