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"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"

O Surgimento do termo “Leigo” na Igreja Cristã 2ª Parte

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Neste post procurarei dar alguns exemplos da participação dos cristãos leigos e leigas nos quatro primeiros séculos do Cristianismo em continuidade com o primeiro post: O Surgimento do termo “Leigo” na Igreja Cristã 1ª Parte.

Robson Cavalcanti[1]

23-04-2014

Para ler o texto em PDF acesse: O Surgimento do termo Leigos na Igreja Cristã 2ª Parte 

Sobre o termo “la»kçv” especificamente, é identificada sua aparição pela primeira vez na carta de Clemente aos Romanos (96-98 d.C),[2] indicando a distinção entre aqueles com funções rituais baseadas na hierarquia do AT e leigos: “Aos sumos sacerdote foram confiadas tarefas particulares, aos sacerdotes um lugar próprio, aos levitas certos serviços e o leigo liga-se pelas ordenações exclusivas dos leigos,”[3] ou seja, há uma organização hierárquica ao mesmo tempo que permanece viva a Igreja de ministérios e carismas. No capítulo 41.1 da mesma carta encontramos a seguinte observação que transmite essa idéia: “Irmãos, cada qual de nós agrade o Senhor em sua função, vivendo de boa consciência, não transgredindo as regras de seu ofício e exercendo-o com toda dignidade.”[4]

É importante destacar que a maior parte das conversões ao cristianismo nos dois primeiros séculos se deu, sobretudo, pela ação dos leigos e leigas e não somente graças aos bispos e sacerdotes.[5] Esta ação se dava pela mediação de cristãos de todas as condições sociais. Ricos ofereciam suas casas para os encontros das comunidades que eram formadas, eram as igrejas domésticas. Na classe popular, aconteciam os gestos de amor, sinceridade e conhecimento mútuo, sobretudo das inquietudes que cada um trazia nos corações, onde Cristo realiza o resgate total da escravidão do pecado, para conferir às pessoas a liberdade de filhos e filhas de Deus[6].

Entre estes cristãos leigos, é possível destacar algumas pessoas que marcaram a história através dos gestos de amor e fidelidade ao Cristianismo em tempos de prevalência da perseguição e clandestinidade. Como exemplo, Tertuliano, Orígenes, Justino, Inácio de Antioquia e os milhares de Mártires, entre eles Santa Luzia.

Tertuliano.[7] Proclamou aos pagãos os frutos da missão cristã, dizendo que os cristãos encheram todos os espaços da sociedade pagã, com exceção do templo. Impactado pela realidade do martírio conclui: “crescemos toda vez que somos ceifados por vós: o sangue dos mártires é semente de cristãos”.[8]

Orígenes.[9] Considerado o mais genial dos didáscalos leigos. Viveu no período onde os leigos detinham o direito de pregar em público a título oficial, considerando este contexto em que o critério não era a ordenação, mas a capacidade de ajudar os irmãos.[10]

Justino. Filósofo palestinense, nascido provavelmente nos primeiros anos do segundo século e martirizado em Roma entre 163 e 167 d.C. autor da obra Apologias e outra chamada o diálogo com Tifão.[11]

Inácio de Antioquia. Atuou entre o fim do primeiro e início do segundo século, nomeou vários leigos e leigas como colaboradores da obra, entre eles Onésimo, Euplo e Frontão da Igreja de Éfeso, Alce Dafno, Eutecno, na Igreja de Esmirna.[12]

Os mártires. Cristãos cuja fé está baseada em uma entrega total e incondicional a Deus revelado em Jesus Cristo num compromisso levado até as ultimas conseqüências, ou seja, até a morte. A morte de Estevão (At. 6-7) serve de chave hermenêutica para essa nova fé e testemunho pelos quais muitos homens e mulheres também doaram suas vidas. Dentre estes mártires, citamos Luzia como exemplo. Uma jovem que optou pela vida consagrada a Jesus Cristo, fazendo com que seu pretendente ao matrimônio a denuncia-se ao pró-consul que mandou decapitá-la. Sua frase marca o martirológio cristão: “O corpo só se contamina se a alma consente!”[13]

Considerações

O intuito principal destes dois textos era trazer à tona as variadas compreensões que o termo “leigo” sugere e que os fiéis e a hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana o interpretam, a possibilidade de um resgate da memória, na tentativa de desfazer equívocos e distorções, visando forjar uma nova compreensão a respeito do termo leigo para atualidade. Há uma esperança de transformação na concepção pejorativa e negativa do termo para uma concepção apreciativa, positiva e relevante, principalmente para os fiéis e para a hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana, que muitas vezes estão em constante tensão. Os leigos e leigas na Igreja dos primeiros séculos evidenciam um ser humano ativo, comprometido, protagonista, um cristão autêntico. Que hoje também nós leigos e leigas possamos encontrar caminhos para manter esse legado.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Antonio José de. Leigos em Quê? Uma abordagem histórica. São Paulo: Paulinas, 2006. 374 p.

BIBLIOTHECA PATRISTICA. Carta aos coríntios. São Clemente Romano: Fonte:<http://www.scribd.com> acesso em 17-01-2009.

CAVALCANTI. Robson. Vocação Pastoral do Laicato: Uma reflexão teológica sobre os leigos a partir da comunidade Cristo Ressuscitado, São Paulo-SP. São Bernardo do Campo, 2012. 90 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Teologia) — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2012.

 Notas:

[1]     Leigo, Católico, Teólogo e assessor da comissão de teologia e formação do CLASP.

[2]     ALMEIDA, 2006. op. cit., p. 29 e 30 passim.

[3]     BIBLIOTHECA PATRISTICA. Carta aos coríntios. São Clemente Romano: Disponível em: <http://www.scribd.com> acesso em 17-01-2009. p. 27.

[4]     BIBLIOTHECA PATRISTICA. Carta aos coríntios. op. cit., p. 27.

[5]     ALMEIDA, 2006. op. cit., p. 31.

[6]     Ibidem, p. 31 e 32 passim.

[7]     Primeiro apologista africano do cristianismo nos anos 197 e 217 d.C. Nasceu por volta da metade do segundo século e morto depois de 220. Atuou em Cartago.

[8]     ALMEIDA, 2006. op. cit., p. 32-39.

[9]     Datado entre os anos 185-254 d.C, se destaca entre os cristãos por sua apologética missionária.

[10]    ALMEIDA, 2006. op. cit., p. 32-39.

[11]    Idem.

[12]    Idem.

[13]    Idem.

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Autor: Robson Cavalcanti

Sou um Cristão, Leigo, Teólogo, muito bem casado com uma esposa maravilhosa e empreendedora magnifica que é a Érika. Gosto de humor e da reflexão teológica, principalmente a produzida na América Latina, mais conhecida como Teologia da Libertação. Gosto de buscar conhecimento, gosto de ousar, gosto de arriscar mesmo que as vezes possa errar, pois afinal, somos seres em continua construção, Deus ainda não me terminou!

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