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"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"

Reflexões para uma possível conjuntura eclesial na cidade de São Paulo

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Robson Cavalcanti

Robsoncavalcanti.teologo@gmail.com

Teólogo e Leigo Católico

27-01-2014

A divulgação da análise de conjuntura social e eclesial apresentado pelo sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira[1] no 13º intereclesial das CEBs, somado aos últimos acontecimentos envolvendo o laicato da Igreja de São Paulo, algumas manifestações especificamente na Região Ipiranga, motivaram a reflexão sobre a realidade eclesial atual do laicato. Para tal tarefa, contarei com os apontamentos dos autores Renold Blank[2], Cesar Kuzma[3] além de outras referencias bibliográficas como Conclusões da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe – CELAM[4], documentação elaborada pelo CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL – CNLB[5]. O que se pretende a partir destas referências será apresentar a realidade na qual os leigos e leigas modo geral estão inseridos na Igreja, pois a “imensa maioria da Igreja é formada por leigos e leigas.”[6] A proposta é interagir com os documentos acima citados e apresentar um breve apontamento da realidade.

A realidade que nos interpela

Os Documentos da Igreja, desde o Concílio Vaticano II, e mais recentemente a V Conferência Episcopal Latino Americana realizada em Aparecida, insistem na tarefa de reconhecer e discernir os “sinais dos tempos”[7], na qual os cristãos contam com a luz do Espírito Santo de Deus.

Neste sentido, nosso desafio é olhar para esse contexto pós-industrial, das tecno-metrópoles com seus variados recursos na área de informação, tecnologia e comunicação, que acaba contribuindo para que muitas pessoas se tornem cada vez mais consumistas, individualistas, mais apáticos à pobreza, aos problemas sociais e a miséria que cerca a todos, mas que por outro lado proporcionam uma melhor formação para as pessoas, tornando-as altamente capacitadas no âmbito profissional e engajadas em áreas do saber e lê-lo a luz do Espírito Santo.

Neste contexto, as pastorais são igualmente desafiadas a lidar com pessoas que não entendem porque são chamadas de leigos e leigas, pois não se sentem leigas, ou inferiores, ou ignorantes ou sem orientação como o termo sugere e também não se identificam com o termo ovelhas, com a necessidade de serem guiadas por um pastor, no caso, o que compromete o serviço pastoral e o serviço do pastor na comunidade de fé.[8]

A postura triunfalista dominadora e autoritária presente na Igreja também contribui para o afastamento de muitos cristãos que não aceitam tal postura e que consideram um reforço às estruturas retrogradas, alienantes e opressoras, ainda que a Igreja também lute contra a opressão e esteja preferencialmente ao dos pobres e oprimidos e a favor da liberdade. Infelizmente os pontos negativos se sobressaem e por isso, são os mais destacados pela maioria dos leigos.[9]

Há questionamentos lançados à Igreja Católica Apostólica Romana[10] pelos leigos sobre tais posturas, porém não são expressão e afirmação de desamor e negação à mesma, mas é justamente o oposto, ou seja, consiste no sentimento de amor e pertença que move os leigos a questioná-la na tentativa de uma possível resolução dos conflitos existentes dentro da mesma. Isso porque ao comparar o projeto e postura da Igreja institucional e a postura e projeto de Jesus, os leigos se convencem de que existe um grande abismo entre estes dois pontos que não deveria existir. Esses dados e fatores revelam a autonomia que os leigos adquiriram neste século XXI.

Tal autonomia é influenciada pelas transições que acontecem na sociedade quanto à passagem de um modelo mais fechado, do meio rural, mais próximo dos modelos das comunidades eclesiais primitivas, para o modelo de sociedade urbana, que é mais flexível e aberta com relação ao ser humano, que exige a liberdade de escolha, fazendo dos leigos e leigas pessoas autônomas. Consequentemente, a Igreja precisa estar atenta à compreensão desta nova situação de autonomia dos leigos e leigas, que passam a abandonar a tutela e passividade e começam a perceber sua capacidade de discernimento, redescobrindo a liberdade de filhos e filhas de Deus,[11] sem desconsiderar a necessidade do acompanhamento, do cuidado e do aconselhamento pastoral. A Igreja, portanto, se vê confrontada como no primeiro século do cristianismo: um mundo plural, onde só se convence quando a mensagem consegue responder aos seus anseios de esperança.[12]

Os cristãos leigos e leigas, no atual contexto, não querem se deixar guiar como ovelhas passivas, mas são críticos em relação às estruturas eclesiais que não permitem sua maior participação e corresponsabilidade nos assuntos que as autoridades eclesiásticas restringem. Ou seja, a imagem do cristão “ovelha” vai desaparecendo e novas concepções vão sendo consideradas como: a substituição da tutela por colaboração e da obediência por cooperação responsável.[13]

A juventude neste sentido é um desafio a Igreja, pois está mergulhada neste contexto da autonomia e não aceitam qualquer impressão de tutela. A reação muitas vezes é a manifestação pública e muitas vezes a saída da instituição religiosa, ocorrendo um esvaziamento das celebrações e busca de outros campos de ação.

Os cristãos leigos também estão cansados das estruturas de dependência impostas pela ordem social, com tantas obrigações seja no trabalho, no estudo e no pagamento de tantos tributos. Ao contrário, eles querem obter autonomia e anseiam por liberdade. Contudo, se a Igreja não quebra este círculo de dependência, de continuidade com a ordem vigente, ela acaba provocando a irritação e o afastamento destes fiéis.

Portanto, os cristãos leigos não se afastam da religião, mas sim das instituições religiosas que os colocam em estado de submissão, falta de liberdade, com comportamento autoritário, posição anterior e contrária ao Concílio Vaticano II.[14]

Mas é claro que há ambiguidades em meio a este contexto eclesial e não podemos deixar de destacar algumas, como por exemplo: líderes progressistas com mentes inovadoras e espírito transformador na lógica do Concílio Vaticano II em meio a líderes conservadores, com medo do novo e que acabam por promover um projeto neoconservador e centralizador, tentando manter a estrutura antiga e fugindo do espírito do Concílio. Também há várias comunidades com seus sacerdotes que trabalham a linha de pastoral e de formação do laicato na perspectiva da comunhão, participação e da autonomia, enquanto outros optam pela formação de pessoas nos parâmetros rurais da submissão e tutela. Muitos leigos também estão descompromissados com os serviços comunitários, ou são marcados pela tradição a ponto de não quererem mudar de atitude de ovelha passiva e obediente, para protagonistas. Por outro lado, há também clérigos com atitudes opressoras a fim de manter sua estrutura de poder e leigos que são bem vistos como assistentes dos clérigos, desde que não interfiram nas suas decisões.

No entanto, esta nova mentalidade e compreensão do laicato quanto à sua autonomia questionadora, não submissa e exigente quanto os direitos dentro da igreja, é resultado de uma vivência de cristãos leigos emancipados.[15]

“Leigos ovelhas” e “leigos emancipados” são classificações feitas por Blank, e por isso é interessante uma breve explicação das mesmas.

Os leigos e leigos “ovelhas” são aqueles que por medo de novas estruturas e de assumir compromissos, preferem ficar sob a tutela da instituição eclesial com os Padres, Bispos e o Papa. Suas características principais estão centradas na atitude de obediência e de comodismo, sustentando a postura clericalista. Esta estrutura por sua vez tem muito agrado por leigos incluídos neste perfil.

Os leigos e leigas “emancipados” são aqueles que estão engajados nos serviços eclesiais e não tem interesse por brigas intra-eclesiais e discussões dogmáticas. Porém, não aceitam a tutela da Igreja institucional ou de uma autoridade clerical. Estão presentes nos processos decisórios e possuem uma boa capacidade de resolver problemas, ou seja, são acostumados a terem autonomia e senso crítico. Estes cristãos não se entendem mais como leigos na igreja, sendo assim, a expressão do tipo de cristão pós-moderno do século XXI.[16]

Todas estas situações sobre a realidade intra-eclesial revelam que estamos diante de um impasse, onde “mesmo com os avanços propostos pelo Concílio Vaticano II e pelas Conferências Episcopais, alguns setores acabam por manter certa postura clericalizada.”[17]

Este ponto é o principal gerador de dificuldades e conflitos no interior da Igreja, tornando a reflexão deste tema, uma tarefa nada fácil, visto que há tensões tanto por parte do Clero como por parte dos Leigos. Porém é preciso considerar o fato de que há membros do corpo clerical da Igreja que não tem o devido respeito “à altura pela dignidade dos fiéis através dos méritos de Cristo”[18] e que há fiéis leigos desprovidos de informação e formação. Infelizmente os fiéis leigos são vistos “como meros receptores de sacramentos e meros observantes da Lei da Igreja, devendo ser, em tudo, submissos ao poder conferido aos ministros ordenados, que compõem, desta forma, a hierarquia eclesial”.[19]

Além disso, é perceptível o temor do clero em favorecer uma abertura aos leigos para execução de atividades que podem colocar em risco seu poder absoluto, chegando ao ponto de proibi-los de exercerem as mesmas. Este posicionamento de superioridade do clero em relação aos leigos é condenado pela Igreja e fere profundamente o espírito do Concílio. Tais atitudes revelam o fechamento e a degradação do ministério ordenado, que além de não seguir a doutrina conciliar desperdiçam a chance de buscar uma ação de compartilhamento de atividades e funções que podem motivar e dar novos frutos e vocações sacerdotais.

Com essa afirmação, de maneira nenhuma se pretende atacar a hierarquia da ICAR, mas o interesse é realmente apontar para este tipo de postura que infelizmente está presente no meio eclesial. Tal postura é questionada e condenada, porque diverge da proposta de comunidade do Novo Testamento onde todos são membros de um só corpo e Cristo é a cabeça, contrariando igualmente a afirmação de que todos são guiados pelo mesmo Espírito,[20] revelando o clericalismo presente na Igreja. Por fim, temos o contra testemunho cristão em relação à unidade por parte dos clérigos e leigos que disputam o espaço eclesial em vez de se ajudarem mutuamente. Em um mundo que já possui relações fragmentadas, tais posturas acabam por reforçar ainda mais e legitimar tal situação.

Considerações finais

No entanto, a ICAR já percebeu a necessidade de quebrar paradigmas abrindo-se ao diálogo com o mundo e a sociedade contemporânea e valorizando ainda mais os fiéis e incentivando-os ao serviço pastoral e a pratica do amor, não só em documentos, mas na prática, pois sente o desafio de estar em coerência com evangelho respondendo com alegria ao chamado e ao envio de Jesus: “Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda a criatura”(Mc 16.15), sem discriminação e posturas que contradizem o testemunho cristão.

A grande novidade vem através do nosso atual Papa Francisco, que mais do que falar, vive a cada dia o testemunhando e o comportamento cristão para a Igreja e para o mundo, como bom Jesuíta que é, imitando nosso Senhor Jesus Cristo, mostrando que nós também podemos e devemos imitá-lo.

Com o Papa Francisco, acompanhamos a valorização dada aos leigos através do seu contato face a face, por telefone, eclesialmente através das entrevistas, pregações e orientações, fortalecendo tantos e tantos fiéis na fé, abrindo as portas da Igreja para um sopro confortante do Espírito Santo que coloca a Igreja Católica em um clima de alegria e esperança. E por falar em esperança, temos sabido recentemente que a comissão dos oito cardeais cogitam a possibilidade de uma congregação para os leigos, pois segundo o mesmo, o Papa quer uma nova representação para os leigos.

Portanto, mesmo sabendo que na comunidade local, nem sempre o testemunho do Papa é adotado e bem aceito, continuaremos clamando a Deus para que nos liberte da opressão, nos concedendo a força do Espírito Santo e não deixando cair a profecia, pois como o Próprio Papa disse: “Quando falta a profecia na Igreja, toma lugar o clericalismo”.

Baixe o post acessando o link:

Reflexões para uma possível conjuntura eclesial na cidade de São Paulo

 

Referências Bibliográficas

BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. 168 p.

CELAM, Documento de Aparecida. 2ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. 312 p.

————. Documentos do CELAM: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellín, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. 878p. – (clássicos de bolso).

CNLB. Texto-Base preparatório para o VI ENCONTRO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL. São Paulo: CNLB, 2011. 34 p.

KUZMA, Cesar. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009. 164 p. (Coleção Comunidade e missão)

NOTAS:


[2]     BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. 168 p.

[3]     KUZMA, Cesar. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009. 164 p. (Coleção Comunidade e missão).

[4]     CELAM, Documento de Aparecida. 12ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. 312p.

[5]     Fonte: http://www.cnlbsul1.com.br/materiais_estudos.asp?i=listar&busca=Texto-Base preparatório para o VI Encontro do CNLB. CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL – CNLB. Acesso em: 02 de Março de 2012.

[6]     CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Documentos do Celam: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellín, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. p. 678. § 94.

[7]     CELAM, Documento de Aparecida. 12ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. p. 27.

[8]     BLANK, 2008. p. 5-8.

[9]     BLANK, 2008. p. 90 e 91.

[10]    Usaremos a abreviação ICAR a partir deste ponto para se referir a Igreja Católica Apostólica Romana.

[11]    BLANK, 2008. p. 92 e 93.

[12]    Ibidem, p. 89.

[13]    Ibidem, p. 94.

[14]    BLANK, 2008. p. 23-25.

[15]    Ibidem, p. 38-40.

[16]    BLANK, 2008. p. 80-85.

[17]    KUZMA, 2009. 164 p.

[18]    KUZMA, 2009. p. 24.

[19]    Idem.

[20]    1 Cor 12.

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Autor: Robson Cavalcanti

Sou um Cristão, Leigo, Teólogo, muito bem casado com uma esposa maravilhosa e empreendedora magnifica que é a Érika. Gosto de humor e da reflexão teológica, principalmente a produzida na América Latina, mais conhecida como Teologia da Libertação. Gosto de buscar conhecimento, gosto de ousar, gosto de arriscar mesmo que as vezes possa errar, pois afinal, somos seres em continua construção, Deus ainda não me terminou!

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