Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"


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Reflexões para uma possível conjuntura eclesial na cidade de São Paulo

Robson Cavalcanti

Robsoncavalcanti.teologo@gmail.com

Teólogo e Leigo Católico

27-01-2014

A divulgação da análise de conjuntura social e eclesial apresentado pelo sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira[1] no 13º intereclesial das CEBs, somado aos últimos acontecimentos envolvendo o laicato da Igreja de São Paulo, algumas manifestações especificamente na Região Ipiranga, motivaram a reflexão sobre a realidade eclesial atual do laicato. Para tal tarefa, contarei com os apontamentos dos autores Renold Blank[2], Cesar Kuzma[3] além de outras referencias bibliográficas como Conclusões da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe – CELAM[4], documentação elaborada pelo CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL – CNLB[5]. O que se pretende a partir destas referências será apresentar a realidade na qual os leigos e leigas modo geral estão inseridos na Igreja, pois a “imensa maioria da Igreja é formada por leigos e leigas.”[6] A proposta é interagir com os documentos acima citados e apresentar um breve apontamento da realidade.

A realidade que nos interpela

Os Documentos da Igreja, desde o Concílio Vaticano II, e mais recentemente a V Conferência Episcopal Latino Americana realizada em Aparecida, insistem na tarefa de reconhecer e discernir os “sinais dos tempos”[7], na qual os cristãos contam com a luz do Espírito Santo de Deus.

Neste sentido, nosso desafio é olhar para esse contexto pós-industrial, das tecno-metrópoles com seus variados recursos na área de informação, tecnologia e comunicação, que acaba contribuindo para que muitas pessoas se tornem cada vez mais consumistas, individualistas, mais apáticos à pobreza, aos problemas sociais e a miséria que cerca a todos, mas que por outro lado proporcionam uma melhor formação para as pessoas, tornando-as altamente capacitadas no âmbito profissional e engajadas em áreas do saber e lê-lo a luz do Espírito Santo.

Neste contexto, as pastorais são igualmente desafiadas a lidar com pessoas que não entendem porque são chamadas de leigos e leigas, pois não se sentem leigas, ou inferiores, ou ignorantes ou sem orientação como o termo sugere e também não se identificam com o termo ovelhas, com a necessidade de serem guiadas por um pastor, no caso, o que compromete o serviço pastoral e o serviço do pastor na comunidade de fé.[8]

A postura triunfalista dominadora e autoritária presente na Igreja também contribui para o afastamento de muitos cristãos que não aceitam tal postura e que consideram um reforço às estruturas retrogradas, alienantes e opressoras, ainda que a Igreja também lute contra a opressão e esteja preferencialmente ao dos pobres e oprimidos e a favor da liberdade. Infelizmente os pontos negativos se sobressaem e por isso, são os mais destacados pela maioria dos leigos.[9]

Há questionamentos lançados à Igreja Católica Apostólica Romana[10] pelos leigos sobre tais posturas, porém não são expressão e afirmação de desamor e negação à mesma, mas é justamente o oposto, ou seja, consiste no sentimento de amor e pertença que move os leigos a questioná-la na tentativa de uma possível resolução dos conflitos existentes dentro da mesma. Isso porque ao comparar o projeto e postura da Igreja institucional e a postura e projeto de Jesus, os leigos se convencem de que existe um grande abismo entre estes dois pontos que não deveria existir. Esses dados e fatores revelam a autonomia que os leigos adquiriram neste século XXI.

Tal autonomia é influenciada pelas transições que acontecem na sociedade quanto à passagem de um modelo mais fechado, do meio rural, mais próximo dos modelos das comunidades eclesiais primitivas, para o modelo de sociedade urbana, que é mais flexível e aberta com relação ao ser humano, que exige a liberdade de escolha, fazendo dos leigos e leigas pessoas autônomas. Consequentemente, a Igreja precisa estar atenta à compreensão desta nova situação de autonomia dos leigos e leigas, que passam a abandonar a tutela e passividade e começam a perceber sua capacidade de discernimento, redescobrindo a liberdade de filhos e filhas de Deus,[11] sem desconsiderar a necessidade do acompanhamento, do cuidado e do aconselhamento pastoral. A Igreja, portanto, se vê confrontada como no primeiro século do cristianismo: um mundo plural, onde só se convence quando a mensagem consegue responder aos seus anseios de esperança.[12]

Os cristãos leigos e leigas, no atual contexto, não querem se deixar guiar como ovelhas passivas, mas são críticos em relação às estruturas eclesiais que não permitem sua maior participação e corresponsabilidade nos assuntos que as autoridades eclesiásticas restringem. Ou seja, a imagem do cristão “ovelha” vai desaparecendo e novas concepções vão sendo consideradas como: a substituição da tutela por colaboração e da obediência por cooperação responsável.[13]

A juventude neste sentido é um desafio a Igreja, pois está mergulhada neste contexto da autonomia e não aceitam qualquer impressão de tutela. A reação muitas vezes é a manifestação pública e muitas vezes a saída da instituição religiosa, ocorrendo um esvaziamento das celebrações e busca de outros campos de ação.

Os cristãos leigos também estão cansados das estruturas de dependência impostas pela ordem social, com tantas obrigações seja no trabalho, no estudo e no pagamento de tantos tributos. Ao contrário, eles querem obter autonomia e anseiam por liberdade. Contudo, se a Igreja não quebra este círculo de dependência, de continuidade com a ordem vigente, ela acaba provocando a irritação e o afastamento destes fiéis.

Portanto, os cristãos leigos não se afastam da religião, mas sim das instituições religiosas que os colocam em estado de submissão, falta de liberdade, com comportamento autoritário, posição anterior e contrária ao Concílio Vaticano II.[14]

Mas é claro que há ambiguidades em meio a este contexto eclesial e não podemos deixar de destacar algumas, como por exemplo: líderes progressistas com mentes inovadoras e espírito transformador na lógica do Concílio Vaticano II em meio a líderes conservadores, com medo do novo e que acabam por promover um projeto neoconservador e centralizador, tentando manter a estrutura antiga e fugindo do espírito do Concílio. Também há várias comunidades com seus sacerdotes que trabalham a linha de pastoral e de formação do laicato na perspectiva da comunhão, participação e da autonomia, enquanto outros optam pela formação de pessoas nos parâmetros rurais da submissão e tutela. Muitos leigos também estão descompromissados com os serviços comunitários, ou são marcados pela tradição a ponto de não quererem mudar de atitude de ovelha passiva e obediente, para protagonistas. Por outro lado, há também clérigos com atitudes opressoras a fim de manter sua estrutura de poder e leigos que são bem vistos como assistentes dos clérigos, desde que não interfiram nas suas decisões.

No entanto, esta nova mentalidade e compreensão do laicato quanto à sua autonomia questionadora, não submissa e exigente quanto os direitos dentro da igreja, é resultado de uma vivência de cristãos leigos emancipados.[15]

“Leigos ovelhas” e “leigos emancipados” são classificações feitas por Blank, e por isso é interessante uma breve explicação das mesmas.

Os leigos e leigos “ovelhas” são aqueles que por medo de novas estruturas e de assumir compromissos, preferem ficar sob a tutela da instituição eclesial com os Padres, Bispos e o Papa. Suas características principais estão centradas na atitude de obediência e de comodismo, sustentando a postura clericalista. Esta estrutura por sua vez tem muito agrado por leigos incluídos neste perfil.

Os leigos e leigas “emancipados” são aqueles que estão engajados nos serviços eclesiais e não tem interesse por brigas intra-eclesiais e discussões dogmáticas. Porém, não aceitam a tutela da Igreja institucional ou de uma autoridade clerical. Estão presentes nos processos decisórios e possuem uma boa capacidade de resolver problemas, ou seja, são acostumados a terem autonomia e senso crítico. Estes cristãos não se entendem mais como leigos na igreja, sendo assim, a expressão do tipo de cristão pós-moderno do século XXI.[16]

Todas estas situações sobre a realidade intra-eclesial revelam que estamos diante de um impasse, onde “mesmo com os avanços propostos pelo Concílio Vaticano II e pelas Conferências Episcopais, alguns setores acabam por manter certa postura clericalizada.”[17]

Este ponto é o principal gerador de dificuldades e conflitos no interior da Igreja, tornando a reflexão deste tema, uma tarefa nada fácil, visto que há tensões tanto por parte do Clero como por parte dos Leigos. Porém é preciso considerar o fato de que há membros do corpo clerical da Igreja que não tem o devido respeito “à altura pela dignidade dos fiéis através dos méritos de Cristo”[18] e que há fiéis leigos desprovidos de informação e formação. Infelizmente os fiéis leigos são vistos “como meros receptores de sacramentos e meros observantes da Lei da Igreja, devendo ser, em tudo, submissos ao poder conferido aos ministros ordenados, que compõem, desta forma, a hierarquia eclesial”.[19]

Além disso, é perceptível o temor do clero em favorecer uma abertura aos leigos para execução de atividades que podem colocar em risco seu poder absoluto, chegando ao ponto de proibi-los de exercerem as mesmas. Este posicionamento de superioridade do clero em relação aos leigos é condenado pela Igreja e fere profundamente o espírito do Concílio. Tais atitudes revelam o fechamento e a degradação do ministério ordenado, que além de não seguir a doutrina conciliar desperdiçam a chance de buscar uma ação de compartilhamento de atividades e funções que podem motivar e dar novos frutos e vocações sacerdotais.

Com essa afirmação, de maneira nenhuma se pretende atacar a hierarquia da ICAR, mas o interesse é realmente apontar para este tipo de postura que infelizmente está presente no meio eclesial. Tal postura é questionada e condenada, porque diverge da proposta de comunidade do Novo Testamento onde todos são membros de um só corpo e Cristo é a cabeça, contrariando igualmente a afirmação de que todos são guiados pelo mesmo Espírito,[20] revelando o clericalismo presente na Igreja. Por fim, temos o contra testemunho cristão em relação à unidade por parte dos clérigos e leigos que disputam o espaço eclesial em vez de se ajudarem mutuamente. Em um mundo que já possui relações fragmentadas, tais posturas acabam por reforçar ainda mais e legitimar tal situação.

Considerações finais

No entanto, a ICAR já percebeu a necessidade de quebrar paradigmas abrindo-se ao diálogo com o mundo e a sociedade contemporânea e valorizando ainda mais os fiéis e incentivando-os ao serviço pastoral e a pratica do amor, não só em documentos, mas na prática, pois sente o desafio de estar em coerência com evangelho respondendo com alegria ao chamado e ao envio de Jesus: “Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda a criatura”(Mc 16.15), sem discriminação e posturas que contradizem o testemunho cristão.

A grande novidade vem através do nosso atual Papa Francisco, que mais do que falar, vive a cada dia o testemunhando e o comportamento cristão para a Igreja e para o mundo, como bom Jesuíta que é, imitando nosso Senhor Jesus Cristo, mostrando que nós também podemos e devemos imitá-lo.

Com o Papa Francisco, acompanhamos a valorização dada aos leigos através do seu contato face a face, por telefone, eclesialmente através das entrevistas, pregações e orientações, fortalecendo tantos e tantos fiéis na fé, abrindo as portas da Igreja para um sopro confortante do Espírito Santo que coloca a Igreja Católica em um clima de alegria e esperança. E por falar em esperança, temos sabido recentemente que a comissão dos oito cardeais cogitam a possibilidade de uma congregação para os leigos, pois segundo o mesmo, o Papa quer uma nova representação para os leigos.

Portanto, mesmo sabendo que na comunidade local, nem sempre o testemunho do Papa é adotado e bem aceito, continuaremos clamando a Deus para que nos liberte da opressão, nos concedendo a força do Espírito Santo e não deixando cair a profecia, pois como o Próprio Papa disse: “Quando falta a profecia na Igreja, toma lugar o clericalismo”.

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Reflexões para uma possível conjuntura eclesial na cidade de São Paulo

 

Referências Bibliográficas

BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. 168 p.

CELAM, Documento de Aparecida. 2ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. 312 p.

————. Documentos do CELAM: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellín, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. 878p. – (clássicos de bolso).

CNLB. Texto-Base preparatório para o VI ENCONTRO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL. São Paulo: CNLB, 2011. 34 p.

KUZMA, Cesar. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009. 164 p. (Coleção Comunidade e missão)

NOTAS:


[2]     BLANK, Renold J. Ovelha ou Protagonista? A Igreja e a nova autonomia do laicato no século 21. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. 168 p.

[3]     KUZMA, Cesar. Leigos e Leigas: força e esperança da Igreja no mundo. São Paulo: Paulus, 2009. 164 p. (Coleção Comunidade e missão).

[4]     CELAM, Documento de Aparecida. 12ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. 312p.

[5]     Fonte: http://www.cnlbsul1.com.br/materiais_estudos.asp?i=listar&busca=Texto-Base preparatório para o VI Encontro do CNLB. CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL – CNLB. Acesso em: 02 de Março de 2012.

[6]     CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. Documentos do Celam: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellín, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2005. p. 678. § 94.

[7]     CELAM, Documento de Aparecida. 12ª ed. Brasília, São Paulo, CNBB, Paulus, Paulinas, 2011. p. 27.

[8]     BLANK, 2008. p. 5-8.

[9]     BLANK, 2008. p. 90 e 91.

[10]    Usaremos a abreviação ICAR a partir deste ponto para se referir a Igreja Católica Apostólica Romana.

[11]    BLANK, 2008. p. 92 e 93.

[12]    Ibidem, p. 89.

[13]    Ibidem, p. 94.

[14]    BLANK, 2008. p. 23-25.

[15]    Ibidem, p. 38-40.

[16]    BLANK, 2008. p. 80-85.

[17]    KUZMA, 2009. 164 p.

[18]    KUZMA, 2009. p. 24.

[19]    Idem.

[20]    1 Cor 12.

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“Todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).Um Cardeal ungido por uma Pastora!

Não podia deixar de compartilhar esse episódio! Agradeço a Deus por estar vivendo este momento tão importante para o Cristianismo, sobretudo pelos sinais de unidade e fraternidade!

Eis o Texto

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

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Rev. Anne Robertson era a única pastora mulher a participar de uma celebração ecumênica que comemorou o 50º aniversário de um evento histórico:  a ocasião em que o cardeal Richard Cusching discursou na Igreja Metodista, em Sudbury, numa época de tensão entre católicos e protestantes, relata do jornal The Patriot Ledger.

A informação é publicada por National Catholic Reporter, 17-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Cardeal de Boston, Dom Sean O’Malley, frei capuchinho, surpreendeu muitas pessoas ao pedir à Rev. Robertson, uma pastora da Igreja Metodista Unida, para benzê-lo-la com óleo em um ritual ecumênico batista na Igreja Metodista Unida, em Sudbury, também segundo o jornal The Patriot Ledger.

O gesto espontâneo e genuíno quase levou a Rev. Roberston às lágrimas. Ela contou ao Huffington Post que “se sente agraciada por aquelas vezes em que as pessoas conseguem ver além daquilo que as divide e enxergam a nossa humanidade comum; neste caso, a nossa fé em comum”.

A pastora escreveu sobre a experiência em seu blog:

“Nem sempre os encontros ecumênicos são eventos acolhedores para as mulheres. A maioria de nós vivenciou muitos tipos de exclusão, mesmo dentro de nossas congregações; muitas de nós foram deixadas de lado quando tentamos nos juntar a grupos cristãos que não acreditam que as mulheres são aptas para a ordenação. E nestes grupos pode muito bem haver aqueles que não querem tal bênção advinda de algum protestante, mesmo sendo de um pastor. Eu fiquei pensativa assim que tive em mãos o vaso com o óleo.

A nossa saída em direção à sala de escuta levou-nos diretamente a passar pelo cardeal O’Malley. Felizmente, o cérebro do Tom [um religioso que acompanhava o encontro] estava mais engajado no momento, e não perdeu a oportunidade de ser ungido por alguém que poderá ser papa um dia. Tom parou em frente ao cardeal e pediu sua bênção. Parei junto dele e o cardeal O’Malley foi gentil o suficiente para me benzer também.

E então, na medida em que nós dois estávamos parados ali juntos, o cardeal olhou em meus olhos e me pediu para bênze-lo. Eu o fiz. Religiosa escocesa protestante, divorciada, ungindo o cardeal católico irlandês em frente a um banco com sacerdotes católicos e um bispo, os quais provavelmente dariam tudo para ter esta honra. Segurei os soluços durante todo o caminho até o local de volta”.

Diferentes reações à foto vêm se misturando na internet, escreve o jornal The Globe. Enquanto Michael Potemra, do National Review, aplaudiu o cardeal por “fazer ecumenismo de forma correta”, alguns bloggers conservadores católicos expressam-se dizendo estarem “chocados” pelo “ritual falso” por parte do cardeal.

Numa entrevista por telefone, a Rev. Roberston contou ao Huffington Post que o incidente a fez lembrar da verdade presente na passagem bíblica de Gálatas 3:28, de que “já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”. E continuou: “Jesus foi ao encontro das mulheres; e isso foi uma das coisas que sempre lhe criaram problemas! Ele foi ao encontro dos intocáveis e dos vulneráveis”.

A Rev. Robertson disse ao Huffington Post que está acostumada com comentários de ódio na qualidade de mulher ministro. Entretanto, disse ela, “meus colegas no ministério vêm me dando muito apoio e a maioria tem o sentimento que, creio eu, se pretendeu ter: ir ao encontro como um símbolo de que, quaisquer que sejam as nossas diferenças, somos seres humanos servindo a Deus em nosso próprio caminho com fidelidade e que somos um neste momento”.

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527418-foto-comovente-provoca-debate-na-internet


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Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista

Necessitados ampliar a visão sobre o “rolezinho no shopping”, a fim de tentar enxergar o que está por trás das palavras.
Boa análise!
Robson Cavalcanti
Teólogo e Leigo Católico

Leonardo Boff

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.

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Mensagem do Papa para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações

 Que esta mensagem toque todos os corações, mantendo aceso o fogo do Espírito Santo, fazendo com que assumamos cada vez mais nossa vocação pastoral de leigos e leigas.

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

Eis a mensagem:

2014-01-16 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) – Foi publicada nesta quinta-feira, a mensagem do Papa Francisco para o 51º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no dia 11 de maio de 2014, IV Domingo de Páscoa. O tema é: “Vocações, testemunho da verdade”. Publicamos a seguir o texto da mensagem na íntegra:
Amados irmãos e irmãs!
1. Narra o Evangelho que «Jesus percorria as cidades e as aldeias (…). Contemplando a multidão, encheu-Se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe”» (Mt 9, 35-38). Estas palavras causam-nos surpresa, porque todos sabemos que, primeiro, é preciso lavrar, semear e cultivar, para depois, no tempo devido, se poder ceifar uma messe grande. Jesus, ao invés, afirma que «a messe é grande». Quem trabalhou para que houvesse tal resultado? A resposta é uma só: Deus. Evidentemente, o campo de que fala Jesus é a humanidade, somos nós. E a acção eficaz, que é causa de «muito fruto», deve-se à graça de Deus, à comunhão com Ele (cf. Jo 15, 5). Assim a oração, que Jesus pede à Igreja, relaciona-se com o pedido de aumentar o número daqueles que estão ao serviço do seu Reino. São Paulo, que foi um destes «colaboradores de Deus», trabalhou incansavelmente pela causa do Evangelho e da Igreja. Com a consciência de quem experimentou, pessoalmente, como a vontade salvífica de Deus é imperscrutável e como a iniciativa da graça está na origem de toda a vocação, o Apóstolo recorda aos cristãos de Corinto: «Vós sois o seu [de Deus] terreno de cultivo» (1 Cor 3, 9). Por isso, do íntimo do nosso coração, brota, primeiro, a admiração por uma messe grande que só Deus pode conceder; depois, a gratidão por um amor que sempre nos precede; e, por fim, a adoração pela obra realizada por Ele, que requer a nossa livre adesão para agir com Ele e por Ele.
2. Muitas vezes rezámos estas palavras do Salmista: «O Senhor é Deus; foi Ele quem nos criou e nós pertencemos-Lhe, somos o seu povo e as ovelhas do seu rebanho» (Sal 100/99, 3); ou então: «O Senhor escolheu para Si Jacob, e Israel, para seu domínio preferido» (Sal 135/134, 4). Nós somos «domínio» de Deus, não no sentido duma posse que torna escravos, mas dum vínculo forte que nos une a Deus e entre nós, segundo um pacto de aliança que permanece para sempre, «porque o seu amor é eterno!» (Sal 136/135, 1). Por exemplo, na narração da vocação do profeta Jeremias, Deus recorda que Ele vigia continuamente sobre a sua Palavra para que se cumpra em nós. A imagem adoptada é a do ramo da amendoeira, que é a primeira de todas as árvores a florescer, anunciando o renascimento da vida na Primavera (cf. Jr 1, 11-12). Tudo provém d’Ele e é dádiva sua: o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro, mas – tranquiliza-nos o Apóstolo – «vós sois de Cristo e Cristo é de Deus» (1 Cor 3, 23). Aqui temos explicada a modalidade de pertença a Deus: através da relação única e pessoal com Jesus, que o Baptismo nos conferiu desde o início do nosso renascimento para a vida nova. Por conseguinte, é Cristo que nos interpela continuamente com a sua Palavra, pedindo para termos confiança n’Ele, amando-O «com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças» (Mc 12, 33). Embora na pluralidade das estradas, toda a vocação exige sempre um êxodo de si mesmo para centrar a própria existência em Cristo e no seu Evangelho. Quer na vida conjugal, quer nas formas de consagração religiosa, quer ainda na vida sacerdotal, é necessário superar os modos de pensar e de agir que não estão conformes com a vontade de Deus. É «um êxodo que nos leva por um caminho de adoração ao Senhor e de serviço a Ele nos irmãos e nas irmãs» (Discurso à União Internacional das Superioras Gerais, 8 de Maio de 2013). Por isso, todos somos chamados a adorar Cristo no íntimo dos nossos corações (cf. 1 Ped 3, 15), para nos deixarmos alcançar pelo impulso da graça contido na semente da Palavra, que deve crescer em nós e transformar-se em serviço concreto ao próximo. Não devemos ter medo: Deus acompanha, com paixão e perícia, a obra saída das suas mãos, em cada estação da vida. Ele nunca nos abandona! Tem a peito a realização do seu projecto sobre nós, mas pretende consegui-lo contando com a nossa adesão e a nossa colaboração.
3. Também hoje Jesus vive e caminha nas nossas realidades da vida ordinária, para Se aproximar de todos, a começar pelos últimos, e nos curar das nossas enfermidades e doenças. Dirijo-me agora àqueles que estão dispostos justamente a pôr-se à escuta da voz de Cristo, que ressoa na Igreja, para compreenderem qual possa ser a sua vocação. Convido-vos a ouvir e seguir Jesus, a deixar-vos transformar interiormente pelas suas palavras que «são espírito e são vida» (Jo 6, 63). Maria, Mãe de Jesus e nossa, repete também a nós: «Fazei o que Ele vos disser!» (Jo 2, 5). Far-vos-á bem participar, confiadamente, num caminho comunitário que saiba despertar em vós e ao vosso redor as melhores energias. A vocação é um fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor uns aos outros que se faz serviço recíproco, no contexto duma vida eclesial autêntica. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si. A vocação brota do coração de Deus e germina na terra boa do povo fiel, na experiência do amor fraterno. Porventura não disse Jesus que «por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35)?
4. Amados irmãos e irmãs, viver esta «medida alta da vida cristã ordinária» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31) significa, por vezes, ir contra a corrente e implica encontrar também obstáculos, fora e dentro de nós. O próprio Jesus nos adverte: muitas vezes a boa semente da Palavra de Deus é roubada pelo Maligno, bloqueada pelas tribulações, sufocada por preocupações e seduções mundanas (cf. Mt 13, 19-22). Todas estas dificuldades poder-nos-iam desanimar, fazendo-nos optar por caminhos aparentemente mais cómodos. Mas a verdadeira alegria dos chamados consiste em crer e experimentar que o Senhor é fiel e, com Ele, podemos caminhar, ser discípulos e testemunhas do amor de Deus, abrir o coração a grandes ideais, a coisas grandes. «Nós, cristãos, não somos escolhidos pelo Senhor para coisas pequenas; ide sempre mais além, rumo às coisas grandes. Jogai a vida por grandes ideais!» (Homilia na Missa para os crismandos, 28 de Abril de 2013). A vós, Bispos, sacerdotes, religiosos, comunidades e famílias cristãs, peço que orienteis a pastoral vocacional nesta direcção, acompanhando os jovens por percursos de santidade que, sendo pessoais, «exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31).
Disponhamos, pois, o nosso coração para que seja «boa terra» a fim de ouvir, acolher e viver a Palavra e, assim, dar fruto. Quanto mais soubermos unir-nos a Jesus pela oração, a Sagrada Escritura, a Eucaristia, os Sacramentos celebrados e vividos na Igreja, pela fraternidade vivida, tanto mais há-de crescer em nós a alegria de colaborar com Deus no serviço do Reino de misericórdia e verdade, de justiça e paz. E a colheita será grande, proporcional à graça que tivermos sabido, com docilidade, acolher em nós. Com estes votos e pedindo-vos que rezeis por mim, de coração concedo a todos a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 15 de Janeiro de 2014 [Franciscus]


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Os movimentos populares latino-americanos junto ao Papa Francisco

“A mergência dos Excluídos!” É a emergência do nosso querido Papa francisco!
Eis o artigo
Robson Cavalcanti
Teólogo e Leigo Católico

Leonardo Boff

Algo inaudito está acontecendo com a Igreja Católica sob a direção do Papa Francisco. Uma coisa é falar dos pobres e dos excluidos e denunciar a violência praticada contra eles. E deixá-los lá longe com suas penas. A Igreja assumia, normalmente, uma função tribunícia: se propunha representar, como um  tribuno, os pobres. Agora com esse Papa, na linha da tradição latino-americsna, os pobres e excluidos são considerados sujeitos autônomos. Como tais são convocados a Roma, junto à Sé Apostólica, para falarem por si mesmos. Ouvir a versão das vitimas e não apenas ouvir os analistas cinetíficos das causas que os tornam o que são, excluidos e explorados. O Papa empenhou a Academia Pontificia de Ciências para estudar as causas desta perversão. O tema fala por si: “A emergência dos Exluidos“. Isso nos remete a um tema central da Teologia da Libertação ainda nos seus primórdio:”A emergência dos…

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Uma faixa exclusiva de ônibus incomoda muita gente!

Nós somos seres sociais, portanto vivemos em sociedade, considerando assim o pensamento coletivo.
Daí o meu apoio a faixa de ônibus, ainda que Eu utilize o automóvel como meio de transporte.
Muito pouco foi feito pelo transporte coletivo, pois colocar faixa exclusiva em vias com muito trafego, esburacadas, que não tem suporte e ainda, alterar e estinguir algumas linhas de ônibus não resolve o problema. Ainda é pouco. Mas o pouco com Deus é muito e este pouco ajudou amigos e familiares que usam o transporte coletivo e que trabalham em empresas de transporte coletivo.
Sempre digo que independente do nível social que estamos, mesmo tendo condições de andar de carro e outros privilégios, nunca devemos esquecer de onde viemos, do uso do transporte coletivo, da fila lotada dos pontos de ônibus e dos ônibus lotados. Apoiar essas iniciativas é dizer aos que ainda dependem deste transporte: “Tamo Junto amigos!”
 
Eis o artigo que mostra dados interessantes.

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

 
Quinta, 09 de janeiro de 2014

 

Uma faixa exclusiva de ônibus incomoda muita gente…

300 km de faixas incomodam muito mais…
 

“A ‘má vontade’ de nossos gestores sempre se voltou ao transporte coletivo e quem sempre usufruiu de ‘tratamento VIP’ foram os carros… afinal, o transporte por ônibus em nosso país sempre foi considerado ‘coisa de pobre’ e, como tal, nunca precisou ser eficiente, muito menos confortável”, escreve Raquel Rolnik, professora de Arquitetura e Urbanismo na USP, em artigo publicado no blog Habitat, 08-01-2014.

Todos os dias, os paulistanos gastam, em média, 2h e 42min para se locomover na cidade. Por mês, são dois dias e seis horas passados no trânsito. Por ano, chegamos a passar, em média, 27 dias presos em congestionamentos.

Não é difícil adivinhar que setor da população puxa essa média pra cima: segundo dados da última pesquisa Origem e Destino, realizada pelo metrô, o tempo gasto pelos usuários de transporte público em seus deslocamentos é 2,13 vezes maior que o de quem usa o transporte individual.

Sob o impulso das manifestações de junho, uma das medidas adotadas em São Paulo para tentar enfrentar o problema do transporte público foi a implementação de faixas exclusivas de ônibus em várias regiões da cidade. Neste final de ano, já são 295 km de faixas exclusivas e um ganho de quase 50% na velocidade média dos ônibus, que subiu de 13,8 km/h para 20,4 km/h.

Mas a medida vem descontentando, principalmente, usuários de automóvel particular, que têm passado mais tempo em congestionamentos desde a instalação das faixas. Sobre o assunto, um dos primeiros que se manifestou contrariamente às faixas foi o Estadão, que em um editorial do mês de outubro acusou a gestão municipal de “má vontade com o transporte individual”.

Recentemente foi a vez de a revista Época São Paulo decretar em manchete de capa que a experiência das faixas “deu errado”. Na matéria, a revista acusa a frota de ônibus paulistana de ter recebido “tratamento VIP” em diversas ruas da cidade.

Quem fala em “má vontade com o transporte individual” e em “tratamento VIP” dado aos ônibus parece desconhecer o fato de que os carros particulares, que transportam apenas 28% dos paulistanos, ocupam cerca de 80% do espaço das vias. Enquanto isso, os ônibus de linha e fretados, que transportam 68% da população, ocupam somente 8% desse espaço.

Esses números só confirmam que, na verdade, a “má vontade” de nossos gestores sempre se voltou ao transporte coletivo e quem sempre usufruiu de “tratamento VIP” foram os carros… afinal, o transporte por ônibus em nosso país sempre foi considerado “coisa de pobre” e, como tal, nunca precisou ser eficiente, muito menos confortável.

Em São Paulo, de fato, 74% das viagens motorizadas da população com renda até quatro salários mínimos são feitas por modo coletivo. De imediato, a implementação das faixas exclusivas de ônibus beneficia especialmente essa população, que depende do transporte público e historicamente é a mais afetada pela precariedade do sistema.

Entretanto, apenas criar faixas exclusivas, sem introduzir mudanças substanciais na qualidade, regularidade e distribuição dos ônibus, não vai produzir a mudança desejada de não apenas propiciar conforto para quem já é usuário, mas também atrair novos usuários, que hoje se deslocam em automóveis.

Isso inclui desde medidas básicas, como comunicar aos passageiros quais linhas passam em cada ponto, até a melhoria da distribuição das linhas e sua frequência.

Evidentemente, um plano de melhorias a ser implementado ao longo dos próximos anos é necessário para que este conjunto de aspectos seja atacado. Se este plano existe, onde se encontra? Quando foi lançado e por quem foi debatido antes de ser adotado?

Parte das avaliações negativas com relação ao transporte público tem a ver também com isso: anunciam-se medidas e não se pactua uma intervenção articulada, de longo prazo, em que os usuários consigam saber o que, quando e como será alterado…

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527087-uma-faixa-exclusiva-de-onibus-incomoda-muita-gente


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CARTA FINAL DO 13º INTERECLESIAL DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE DO BRASIL AO POVO DE DEUS

 

As Cebs continuam sendo um novo jeito de ser Igreja, pois “trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam a Igreja.” Pela primeira vez na história, este encontro recebe uma carta de um Papa. É Francisco que a envia, pois é pertence ao continente Sulamericano, conhece a realidade das CEBs e sabe seu valor ao decorrer da história. Me orgulho de pertencer a uma das CEBs, na qual puder experimentar Deus na realidade da periferia, um pobre com outros pobres, mas com muita fé no Cristo Ressuscitado!

Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

CARTA FINAL DO 13º INTERECLESIAL DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE DO BRASIL AO POVO DE DEUS

 Irmãs e irmãos da caminhada,

 “Maria pôs-se a caminho … entrou na casa e saudou Isabel … bem aventurada tu que acreditaste … as crianças estremeceram de alegria no ventre …” (cf. Lc 1,39-45)

 Em atitude romeira, o povo das Comunidades Eclesiais de Base de todos os cantos do Brasil colocou-se a caminho respondendo ao chamado da grande fogueira acesa pela Diocese de Crato-CE, convocando para o 13º Intereclesial. A luz da fogueira alumiou tão alto que fez acorrer representantes de Igrejas irmãs evangélicas e de outras religiões. Até foi avistada em toda a América Latina e Caribe, Europa, África e Ásia.

O Cariri, “coração alegre e forte do Nordeste”, se tornou a “casa” onde se encontraram a fé profunda do povo romeiro, nascida do testemunho do padre Ibiapina e do padre Cicero, da beata Maria Madalena do Espírito Santo Araújo e do beato Zé Lourenço, com a fé encarnada do povo das CEBs nascida do grito profético por justiça e da utopia do Reino.

Houve um encontro entre a Religiosidade popular e a Espiritualidade libertadora das CEBs. As duas reafirmaram seu seguimento de Jesus de Nazaré, vivido na fé e no compromisso com a justiça a serviço da vida.

Bem aventurado o povo que acreditou!

A moda da viola e da sanfona cantou este acreditar. As palavras de dom Fernando Panico, bispo de Crato, na celebração de abertura confirmaram este acreditar, proclamando: as CEBs são o jeito da Igreja ser. As CEBs são o jeito “normal” da Igreja ser. Jeito normal de o povo de Deus responder no hoje à proposta de Jesus: ser comunidade a serviço da vida.

Ao ouvir a proclamação desta boa noticia, o ventre do povo que veio em romaria para Juazeiro do Norte ficou de novo grávido deste sonho, desta utopia. A esperança foi fortalecida. A perseverança e a resistência na luta foram confirmadas. O compromisso com a justiça a serviço do bem-viver foi assumido.

E a alegria estourou como fogos a vista e do meio da alegria escutamos a memória da voz querida de dom Helder Câmara, a se fazer ouvir: Não deixem a profecia cair! Não deixem a profecia cair!

A profecia não caiu. Ecoou nas palavras do índio Anastácio: “Roubaram nossos frutos, arrancaram nossas folhas, cortaram nossos galhos, queimaram nossos troncos, mas não deixamos arrancar nossas raízes.” Raízes indígenas e quilombolas que afundam na memória dos ancestrais, no sonho de viver em terras demarcadas, livres para dançar, celebrar e festejar a terra que é mãe.

Emergiu a memória do padre Ibiapina, que já incentivava a construção de cisternas de pedra e cal e o plantio de árvores frutíferas, para conviver com a realidade do semiárido. Reanimava assim a esperança e a dignidade do povo sertanejo. O protagonismo da beata Maria Araújo canalizou os desejos mais profundos de vida e vida em abundância, o que incomodou os grandes e a hierarquia eclesiástica. O padre Cícero e o beato Zé Lourenço continuaram acolhendo os excluídos no mesmo espirito de Ibiapina. Organizaram a comunidade do Caldeirão movida pela fé, trabalho, fartura e liberdade. Esta forma de convivência com o semiárido tem continuidade nas CEBs, nas pastorais e entidades comprometidas com os pobres,

A profecia ecoou na análise de conjuntura, que levou a constatar que o Brasil ainda precisa reconhecer que no campo e na cidade, não basta realizar grandes projetos. O grande capital prioriza o agro e hidronegócio e as mineradoras, continuando a expulsar do campo para concentrar as pessoas nas cidades, tornando-as objeto de manipulação e exploração, de concepções dominadoras e produtoras de profundas injustiças. O povo continua sendo despojado de sua dignidade: seus filhos e filhas definham no mercado das drogas e no tráfico de pessoas; é destituído de seus direitos à saúde, educação, moradia, lazer; a juventude é exterminada, obscurecendo a possibilidade de se projetar no futuro por falta de oportunidades; ainda existem preconceitos e outras violências marcam as relações de etnia, cor, idade, gênero, religião. Percebemos que transformar os cidadãos e cidadãs em consumidores é ameaça para o “Bem Viver”.

Ranchos (miniplenários) e chapéus (grupos) tornaram-se espaços de partilha das experiências de busca para compreender a sociedade que é o chão onde as CEBs labutam e vivem.

E nos passos de padre Cícero, as CEBs se tornaram romeiras nas veredas do Cariri, conhecendo realidades e comunidades; vivenciando a firmeza dos mártires e profetas; experimentando a partilha e a festa do jeito que o povo nordestino sabe fazer.

A sabedoria dos patriarcas e das matriarcas nos acompanhou resgatando a memória e orando: “Só Deus é grande”, “Amai-vos uns aos outros”.

A grandeza de Deus se revela nos romeiros, povo sofrido que ao assumir a organização da romaria, na prática da solidariedade, na reza e no canto dos benditos se torna protagonista e ressignifica o espaço da vida diária.

O amor é manifestado na profecia da mulher que no acariciar, no amassar o pão, na liderança e revolução carrega em seu ventre nossa libertação; na profecia que por amor à justiça se torna ecumênica; em Jesus de Nazaré que por primeiro viveu a justiça e a profecia a serviço da vida e nos desafia a sermos CEBs Romeiras do Reino no campo e na cidade.

A vivência comunitária no terreiro do semiárido renovou nosso acreditar. Exultamos de alegria como as crianças que saltaram de alegria no ventre das mães vislumbrando o novo. O Reino se fez presente no meio de nós. Seus sinais estão presentes na irmandade: oramos e refletimos, reavivamos à nossa frente rostos de mártires e profetas da caminhada, refletimos e debatemos, formamos a mesma fila para comer juntos a gostosa comida do Cariri, à mesma pia lavamos nossos pratos. Na circularidade do serviço, do canto, do testemunho reafirmamos o compromisso de ser CEBs: Romeiras do Reino, profetas da justiça que lutam pela vida, a serviço do bem-viver, sementes do Reino e da sua Justiça, comunidades profetas de esperança e da alegria do Evangelho.

Romeiros e romeiras sempre voltam para seu chão, repletos de fé e esperança. Nós também voltamos como romeiros e romeiras grávidos da utopia do Reino que é das CEBs. Voltamos para nosso chão, com uma mensagem do papa Francisco, bispo de Roma e Primaz na Unidade. Dele recebemos reconhecimento, encorajamento, convite a continuarmos com pisada firme a caminhada de sermos Igreja Romeira da justiça e profecia a serviço da vida.

Juntamo-nos à voz de Maria que louvou ao Deus da vida que realiza suas maravilhas nos humilhados. Unamos nossas vozes á sua para com ela derrubar os poderosos de seus tronos e elevar os humildes, despedir os ricos de mãos vazias e encher de fartura a mesa dos empobrecidos.

Irmãs e irmãos, vos abraçamos com amorosidade. Amém, Axê, Auerê, Aleluia!

Foto: Comunicação Intereclesial das CEBs