Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"

Percepção de Deus na vida humana

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 Robson Cavalcanti

Teólogo e Leigo Católico

As palavras seguintes correspondem a minha experiência com Deus, o que torna limitado a compreensão e visão do mundo. Foi um primeiro esboço de reflexão teológica no início do ano de 2009. Entretanto, considero o exercício da reflexão Teológica muito importante, porque cada experiência é única e o testemunho expressado pode nos trazer novas possibilidades de vida.

Eis o texto

Imagino que na infância não temos a vontade e nem a consciência de pensarmos em Deus, pensar sobre Deus. Lembro-me das noites em que minha mãe me ensinava a rezar, juntando as mãos, fazendo a oração do Pai Nosso, Ave Maria, santo Anjo do Senhor fazer o Sinal da Cruz e esperar adormecer. Lembro de ir a Igreja, a Paróquia e não ter a menor consciência do que estava fazendo lá. Com 9 anos tive iniciei a experiência de viver e conviver em uma comunidade eclesial de base, na favela do mangue. Lá as celebrações eram na sua maioria celebrada pelas senhoras. O padre aparecia uma vez por mês. Celebrávamos nos quintais das casas, no frio e no calor, dentro das casas nas salas, em quartos, aonde cabia gente e também celebrávamos nos barracos de madeira, sentados no chão de madeira, onde dava pra ver o rio poluído abaixo e o cheio de esgoto por toda parte. Ainda não entendia muita coisa, mas acompanhava minha mãe em tudo, deste as celebrações até as reuniões mais “quentes”. O padre era um alemão que vivia uma vida simples. Seu carro era um fusca que seus familiares da Alemanha compraram para ele. Ele dava aula para ter seu dinheiro porque não queria o da Igreja. Lembro das palavras de incentivo, dizendo para juntar o dinheirinho da coleta e do dizimo, para abrir uma poupança e para ver se dava pra comprar um pedaço de terra lá na favela. Dizia que a comunidade e a Igreja era o povo. Os ornamentos da consagração da Eucaristia nada tinham de reluzentes. Eram de barro.

Na catequese já aos 12 anos começamos a ter contado mais próximo com a Bíblia. Não lembro de muita coisa. Lembro do amor das catequistas, da dedicação que tinham por nós. Elas também diziam que nós éramos o povo de Deus. A catequese acontecia em uma sala de um prédio no bairro que depois foi ocupada e tivemos que nos reunir nas casas.

Quando cheguei na idade da pré-adolescência, comecei a pensar sobre Deus e seguindo o que me foi ensinado, acreditava em Deus Pai. As vezes pensava em Deus como um pai igual ao meu próprio Pai. Alguém muito ocupado, pouco brincalhão, rigoroso, ao mesmo tempo bondoso, pouco conversador, mas alguém que não descuidava de seu filho, preocupado com a educação e o comportamento.

Crescendo na fé da Tradição Católica, o cristão recebe os sacramentos chamados de iniciação cristã. São sacramentos do Batismo, Primeira Eucaristia e a Confirmação do Batismo, também conhecida como Crisma. Quando não temos uma maturidade na fé, a primeira impressão é de que estes sacramentos só servem para afirmar o cuidado de Deus para com a gente. Mas na medida que vamos crescendo, vivendo a fé na prática, colocando-se a serviço da comunidade, estes sacramentos tomam profundo sentido na vida do Cristão, fazendo com que tenhamos uma nova consciência de Deus, descobrindo qual é o seu projeto e quem é seu povo.

Foi na comunidade eclesial de base que comecei a fazer experiências profundas com Deus.

Tendo uma Bíblia e freqüentando Círculos bíblicos elaborados pela comunidade, comecei a ter uma outra visão e opinião sobre Deus. Por exemplo, percebi que nós todos somos o povo de Deus (Ex. 6.7), ele nos conhece desde o ventre materno, consagrando e enviando para uma missão e este povo seu, deve buscar primeiro o reino de Deus e a justiça (Lc 12.31).

Destas colocações saíram questionamentos sobre o que havia aprendido enquanto criança em relação a Deus. Perguntava aos adultos porque não conheci este Deus quando era pequeno. A melhor resposta que recebi é de que tudo tem seu tempo, seu momento. Quando somos crianças pensamos como crianças, mas depois conforme vamos crescendo a linguagem muda porque também mudamos. Encontrei o fundamento desta resposta no livro de (1 Cor 13.11), e entendi que a maturidade na fé me faz enxergar novas  perspectivas.

Encontrei no livro do profeta Jeremias a escolha e a consagração de Deus na vida de uma pessoa.

As lideranças da comunidade, entre elas, minha mãe e minha tia, incentivavam o povo ao engajamento e a participação na comunidade, ajudando em algo que fosse necessário. A palavra de Deus então fazia sentido na minha vida e a minha vida fazia sentido na palavra de Deus gerando um sentimento de participação na história do povo de Deus.

Em um determinado momento fui convidado a tocar violão nas missas e celebrações, pois até então, eram só cantadas no “gogó” sem instrumento algum. Depois fui convidado a assumir um grupo de jovens como catequista. Estando à frente do grupo, acabamos nos tornando exemplo, espelho, referência para as pessoas. Mas no início, mesmo estando naquela posição, cometia atos contraditórios, onde a pregação não estava em acordo com a prática.

Deus então interpela e mostra o caminho. Um dia de domingo, quando dando a catequese, foi feita a leitura do livro de Mateus, mais precisamente o capítulo 23. Lá o texto fala sobre as ações dos fariseus. No v.3 diz para “observar o que eles dizem, mas não imitar suas ações, pois eles falam e não praticam”. No v.4 estava escrito que “eles amarram fardos pesados e colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem se quer com um dedo”. Nos versículos seguintes falam que eles só querem se aparecer, querem ser os primeiros, ocupar os lugares de honra, serem vistos em praça e serem comprimentados, chamá-los por mestre. Esses são hipócritas. Ainda que esta mensagem tenha sido dirigida aos escribas e fariseus no contexto daquela época, essa passagem me fez refletir profundamente minhas atitudes e a partir daquele momento, procurando então centrar a minha vida no evangelho, buscando a orientação na prática de Jesus.

A passagem de (Jr 1.5) também marca muito minha vida em determinados momentos. Esta passagem para mim é a afirmação de Deus a todos e a todas que nele acreditam. Ele nos conhece e consagra desde o ventre materno, constituindo cada um e cada uma, profeta do mundo, o profeta que anuncia, mas também denuncia.

Em algumas vezes, atribui a relação desta passagem com a minha vida, pois certo dia ao participar de uma reunião com catequistas da comunidade que participo e outras da paróquia, foi transparecida certa superioridade por parte dos membros da Paróquia com relação aos membros da comunidade no que diz respeito a decisões, dizendo que estas só deveriam ser tomadas pelo grupo da paróquia.

Pedi a palavra neste momento e disse: Não concordo! Devemos partilhar tudo em comum, a exemplo dos apóstolos! (At. 2)

Então começamos a discutir o assunto e tomar a palavra de Deus como a base para o assunto tratado, refletindo a prática de Jesus que dizia que não é o servo maior que o senhor (Jô 15), percebendo que era necessária uma visão mais pautada no evangelho e menos na instituição.

Ficava perceptível então que uma prática dogmática e doutrinária, verticalizada, clericalizada, unida a uma concepção contraditória e equivocada de pastoral por parte do pároco (que agora já era outro) tem influência direta nas pessoas. Eu acredito que este é um dos maiores desafios dos leigos em relação à participação nas comunidades eclesiais de base católicas.

No entanto, a comunidade eclesial que participo tem uma característica mais popular, mais de casa. O pouco contato com o padre beneficiava a comunidade em ser mais livre para a prática de uma espiritualidade mais libertadora, mais inclusiva. Na comunidade de base, Deus é apresentado como um Deus do povo sofrido, injustiçado, menos privilegiado, mais perto da gente. O Deus de Jesus Cristo, que não ficava somente no templo, mas se manifestava nas casas, nos barracos, nos quitais, nos bairros, nas cidades, enfim no meio do povo.

Acredito que por esse motivo a comunidade eclesial aqui comentada teve no inicio, o nome de “Comunidade Povo de Deus”. O trabalho da comunidade era itinerante, pois naquela época não possuía espaço físico fixo para as atividades e celebrações. O povo ainda continua sendo menos favorecido, visto que a realidade local é composta também por uma favela.

Na atualidade a comunidade possui um espaço físico, recebeu outro nome, “Cristo Ressuscitado”, atribuído à data de sua fundação. Contudo, por influência da prática pastoral ainda mais conservadora da Igreja Católica, o serviço pastoral social deixa muito a desejar nesta realidade, o clero procura se envolver mais na comunidade eclesial agora, tentando controlar, incentivando as lideranças a priorizar as celebrações eucarísticas, o que de certa forma, inibe a ação leiga no meio do povo.

Deus assim me interpela com mais intensidade. O Deus da minha infância agora tem uma atitude diferente, pois aprendi que Deus está além das representações e símbolos que utilizamos. Também não está no céu apenas vigiando, cuidando de nós. Deus está transparente no nosso mundo. Deus tem o rosto do povo que sofre, o jeito do simples. É um Deus conosco que permite a realização de coisas boas.

 Bibliografia utilizada

MOLTMANN, Jurgen. Vida, esperança e justiça: um testamento teológico para a América Latina. São Bernardo do Campo: Editeo, 2008. 101p.

BOFF, Leonardo. Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas. Campinas: Verus,  2002. 163p.

BÍBLIA. Português. Bíblia do Peregrino. Tradução de Alonso Schokel. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2006.

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Autor: Robson Cavalcanti

Sou um Cristão, Leigo, Teólogo, muito bem casado com uma esposa maravilhosa e empreendedora magnifica que é a Érika. Gosto de humor e da reflexão teológica, principalmente a produzida na América Latina, mais conhecida como Teologia da Libertação. Gosto de buscar conhecimento, gosto de ousar, gosto de arriscar mesmo que as vezes possa errar, pois afinal, somos seres em continua construção, Deus ainda não me terminou!

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