Empreender e Teologar

"A convergência de dois olhares específicos em prol do bem comum"

Um Reflexão Teológica sobre o discipulado no poema de Oswaldo Montenegro–METADE

Deixe um comentário

 

Metade

Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Fonte: http://letras.mus.br/oswaldo-montenegro/72954/ acesso em 20-10-2012.

Acredito que este poema enaltece o elemento da nossa humanidade. O discípulo é humano e por tanto, vive também uma tensão existencial. Neste sentido, mesmo o discípulo de Cristo, sente medo. No entanto, o discípulo carrega em si também a esperança e a utopia, oferecida pelo Cristo Ressuscitado. Mesmo que “o medo que temos tenha força”, a nossa esperança nos permite ver o que almejamos , faz-nos profetas diante da “morte daquilo que acreditamos” não calando e nem tapando os nossos ouvidos.

O Discípulo também lida em muitos casos com a questão da partida e da saudade, pois muitos saem em missão para lugares que infelizmente nossa esposa, filhos, pai, mãe, enfim a família não pode ou consegue ir. Ou às vezes são os pais que respondendo o chamamento de Deus, vão e deixam os filhos.

O discípulo é um ser humano de sentimentos, com empatia, compaixão, humildade e abnegação de status. A “vontade de ir embora”, desistir, jogar para o alto é frequente diante das situações vivenciais do cotidiano, principalmente em ambiente de pouca aceitação deste estilo de vida. Contudo, como diz o poeta, que nós discípulos de Cristo, possamos transformar estes sentimentos “na paz que merecemos”, vislumbrando a recompensa no céu conforme prometida pelo Próprio Jesus (Mt 5.12).

A solidão acompanha o discipulado. Na condição de teólogo quase sempre está sozinho em sua reflexão. Na condição de discípulo missionário, existe a indisposição das pessoas no ouvir e praticar seu testemunho. O gostar de si mesmo e acreditar em si mesmo é fundamental embora a tensão existencial seja iminente. Em Rm 7.19, percebemos esta tensão quando diz: “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero.” Contudo, precisamos permitir que Cristo habite em nós, transformando-nos em novas criaturas e fiéis testemunhas a ponto de Cristo viver em nós (Gl 2.20).

Que a dimensão lúdica nunca seja deixada de lado, pois Jesus quer que sejamos felizes. Que sejamos como crianças que sorri, tem coragem, é teimosa, pois não desiste fácil das coisas e tem sempre um sorriso, uma alegria que contagia os outros mesmo diante de dificuldades. Esta alegria nos dá paz de espírito. Não esquecendo o cansaço que envolve a nossa humanidade, o discípulo se permita tirar momentos de lazer e férias. Por fim, o amor seja a marca deste discipulado, pois Deus é amor. O discípulo por amar, é visto como louco em um mundo que em determinadas situações se entrega ao desamor. Mas pelo ato de amar, ele também propaga Deus. Cristo como diz São Paulo, é poder e sabedoria de Deus (ICor 1.24). Logo, “o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o forte.” (ICor 1.27). Que o amor seja, portanto, vivencial e a marca indelével do discipulado, pois é das virtudes do ser humano a maior. (ICor 13).

Robson Cavalcanti

Graduando em Teologia pela faculdade de Teologia da Igreja Metodista, Universidade Metodista de São Paulo – UMESP.

Anúncios

Autor: empreendereteologar

Casados, moradores do bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo. Robson é graduando em Teologia pela Faculdade de Teologia da Igreja Metodista FATEO-UMESP. Érika é graduanda em Administração pela Faculdade Nossa Senhora de Assunção - UNIFAI Metro Santa Cruz. Robson como Teólogo e Érika como Empreendedora, querer da mesma forma que o amor que os une, abrir um espaço onde estes dois campos do conhecimento humano possam ser compartilhados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s